OS ABUSOS NA CRIANÇA
Pedro Paulo RochaCapítulo retirado do livro A Saga do Autismo que está sendo reimpresso pela DPL
"Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu, dos desenganos.
Deus, Óh Deus! Quando a morte a luz me roube,
ganhe um momento, o que perderam anos,
saiba morrer, o que viver não soube."
(José Maria Bocage)
Data de 1874, o primeiro caso, de que se tem relato, de
maus-tratos físicos contra uma criança, ocorrido nos EUA. Uma menina, Mary
Ellen, fora barbaramente espancada por sua madrasta. O que fazer? A quem
recorrer? Na falta de outras opções, foi encaminhada à Sociedade de Proteção
de Animais. É incrível, mas é verdade. Os bichos tinham mais recursos de
proteção do que as crianças.
Este acontecimento, bastante explorado pela imprensa, provocou a criação da
Sociedade de Prevenção da Crueldade contra Crianças, em Nova Iorque, no ano
seguinte.
Até 1946, quando Caffey descreveu seis casos de crianças com fraturas múltiplas
e hematomas subdurais, inexistiam relatos, na literatura médica, de abuso
infantil. O autor concluiu que as fraturas indicavam uma origem traumática, por
causas obscuras. Em 1953, Silverman relatou situações semelhantes. Em 1955,
Woolley e Evans levantaram a possibilidade de os pais serem os causadores desses
tipos de lesões. Em 1962, Kempe publicou a "Síndrome da Criança
Espancada". O impacto dessa publicação foi de tal ordem que, entre 1963 e
1968, todos os estados americanos aprovaram leis que obrigam os profissionais de
saúde a reportarem casos suspeitos às autoridades.
Dados levantados na década de sessenta apontavam as mães, que tinham contato
mais estreito com os filhos, como as maiores responsáveis pelo abuso infantil.
Na década de setenta registrou-se um aumento no números de homens envolvidos,
com menção especial aos padrastos, namorados das mães e empregados domésticos
que cuidam de crianças. Os pais naturais também estavam envolvidos, em muitos
casos.
Segundo Helfer e alguns estudiosos, 30% a 60% dos pais que abusam dos filhos
foram vítimas de abuso, quando crianças. Esta mesma explicação é dada para
o caso de maridos que batem em suas mulheres. Talvez a explicação não seja
exatamente esta. Já tive a ocasião de acompanhar muitos casos, como o jovem
Marco Antônio, que espancava, frequentemente sua esposa, até que esta, não
mais suportando, apelou para o divórcio. Contudo, o pai dele nunca espancara a
mulher. Ao contrário, tinha o temperamento submisso e era dominado por ela, que
tinha um gênio extremamente agressivo. Marco Antônio simplesmente herdara a
agressividade de sua mãe. Mais especificamente, acredito que há uma ponderável
contribuição da falta de capacidade de algumas famílias (particularmente mães)
para lidarem com os problemas familiares devido à falta de controle emocional,
em especial quando têm filhos excepcionais que não correspondem às suas
expectativas.
Hibbard e Sanders relataram que os maus-tratos não são sempre intencionais, ou
seja, geralmente não têm o propósito de provocar as lesões, que acabam
ocorrendo em decorrência do descontrole emocional, que pode redundar em lesões
significativas ou mesmo na morte da vítima.
O abuso físico ou emocional de crianças é negado, porque não podemos admitir
"o monstro em nós habita", o nosso ocasional desamor, raiva ou ódio
contra "este ser tão pequeno, indefeso e querido". Nenhum pai ou mãe
vai admitir espontaneamente, que já teve vontade de "torcer o pescoço do
seu filhinho".
A aceitação do abuso sexual infantil como um fenômeno real é relativamente
recente. Quando Freud estava desenvolvendo sua teoria da origem das neuroses,
ele começou a ouvir seriamente as revelações de suas pacientes sobre serem
abusadas sexualmente por seus pais. Porém, ele foi criticado por seus colegas
devido a essas observações e mudou a sua posição inicial, começando a
referir as revelações de suas pacientes como "fantasias". Somente na
década de 60, com o artigo de Kempe, intitulado "A Síndrome da Criança
Espancada", e o surgimento do movimento feminista foi que a dolorosa
realidade do abuso sexual infantil começou a ser constatada por profissionais
de todos os campos."
O abuso sexual em crianças também é frequentemente negado, inicialmente
porque é da natureza humana negar ou minimizar toda e qualquer problemática
grave que ameace nos ameace. É uma defesa psicológica, ainda que primitiva,
frente a uma dor emocional. Frequentemente ele é praticado pelo próprios pais.
Segundo Woodbury & Schwartz, 10% das mulheres americanas sofreram um abuso
incestuoso.
O Dr. André Salame Seabra, no artigo "Abuso sexual na Infância", faz
o seguinte relato:
"Embora os dados disponíveis ainda sejam escassos e fragmentários,
sabe-se que a atitude da sociedade quanto à participação de crianças em práticas
sexuais com adultos tem variado no tempo e no espaço, desde a aceitação até
a condenação, constatando-se uma certa ambigüidade dos dados históricos. A
idéia de normalidade das relações sexuais adulto-criança está presente em
pelo menos três grandes vertentes históricas: na tradição grega, judaica e
sumeriana.
Mesmo nos dias de hoje, há quem advogue a relação sexual adulto-criança como
benéfica para esta última. Numa evidente distorção da realidade, a
International Paedophilic Information Exchange, na Inglaterra, defende o
engajamento sexual de crianças "capazes de consentir", em nome de uma
mal interpretada "liberdade sexual". No caso, evidentemente, a
liberdade é do adulto, visto ser a criança incapaz de consentir com práticas
cujo alcance sequer consegue imaginar.
Sob o ponto de vista médico legal, se verifica que "O psiquiatra não
encontra a perversão isolada. Quando muito, dentro da atividade médico legal,
ele é solicitado a dizer se tal perversão é ou não sintomatológica de uma
enfermidade que a condiciona. A medicina-legal, porém, também postula que a
perversão pura não é patológica , pois que deve continuar a ser punível e,
na prática corrente , o pervertido não procura o psiquiatra." (Jacques
Chazaud)
Atualmente concebemos a vitimização sexual de crianças como uma violação
gravíssima dos direitos infantis. O abuso contra a criança é um problema que
parece estar crescendo no mundo todo e que não pode ser ignorado. É um assunto
que, nos últimos tempos, vem sendo bastante abordado nos noticiários dos periódicos
e merece toda a nossa atenção.
Um dos maiores escândalos, que se tornaram públicos em 1987, envolvia nada
menos que o escritório da UNICEF, Organização das Nações Unidas para a Infância,
em Bruxelas, (JB de 17/8/87) que justamente deveria dar assistência à infância
e protegê-la. O local foi descoberta através de fotos. Naquela Instituição
foram encontradas milhares de fotografias e filmes libidinosos, feitos com crianças.
No prédio havia mesmo um laboratório fotográfico completo, para fins pornográficos.
Numa apuração inicial foram indiciados 14 funcionários por "ultraje público
aos bons costumes e devassidão de menores". Apurou-se que, num porão do
escritório, centenas de crianças haviam sido violentadas e seviciadas,
enquanto eram filmadas e fotografadas para fins porno-comerciais.
Em New York, Avrohom Mondrowitz, um rabino ortodoxo, dono de uma clínica de
psicologia infantil no Brooklyn, foi processado por agressão sexual a mais de
100 crianças. (JB 20/3/87) Conforme depoimentos, perante um tribunal, o rabino,
que fugiu para Israel, levava meninas para assistir a filmes pornográficos e
depois as estuprava.
Muitas vezes são os próprios mestres, aos quais caberia educar o jovem, que
abusam dele, como Margareth K. Michaels, professora de uma Jardim de Infância
de New Jersey, condenada a 47 anos de prisão, por obrigar 19 crianças, de
idades entre três e cinco anos, a se submeterem aos seus instintos depravados.
Eis aí, portanto, a face mais negra do sexo, à que, em especial, estão
sujeitos jovens deficientes, vítimas indefesas, que não sabem ou não podem se
queixar e protestar contra a sordidez de tais situações. O ponto mais crítico
desta questão reside no fato de que, num caso de abuso sexual, o testemunho da
vítima é essencial, como evidência, perante um Tribunal. Porém é muito
remota a possibilidade de que crianças, com problemas intelectuais ou de fala,
possam dar testemunhos válidos em Cortes de Justiça. A revista da Sociedade
Canadense de Autismo relata o caso da jovem Janice, de 15 anos, que foi
violentada por um vizinho e amigo da família. O rapaz, interrogado pelo Serviço
de Proteção à Criança, durante o Inquérito, sob a promessa de que seria
protegido contra o pai da jovem, que o ameaçara, admitiu que molestara a
mocinha. De acordo com a Lei, porém, tal depoimento, dado sob "pressão",
seria facilmente invalidado em um Julgamento. Mesmo sabendo que a vítima tinha
alguma habilidade verbal, ele concluiu que "qualquer interpretação de seu
testemunho poderia ser extremamente ambíguo". Em conseqüência o
criminoso está em total liberdade e não sofreu nenhuma forma de punição.
As crianças deficientes são, portanto, extremamente vulneráveis a todas as
formas de abuso, físico ou sexual. Há pessoas com pouca consciência, capazes
de cometer atos hediondos e provavelmente jamais serão descobertas, caso suas vítimas
sejam mentalmente comprometidas.
Nos registros de ocorrências policiais muitas vezes são os próprios pais que
estão envolvidos, como responsáveis, tanto por maus tratos, como por abusos
sexuais. São brutais as torturas e sofrimentos impostos a milhares de
pequeninos indefesos, vitimas de desequilíbrios, embriaguez, maldade, inconsciência,
à mercê, enfim, de toda sorte de abusos de suas próprias famílias ou de seus
responsáveis.
Além dessas atividades nefandas, temos ainda a lamentar a difusão de
pornografia pelo telefone, nos EUA. Um caso de enorme repercussão foi o de
Brian Thompson, um garoto de dez anos de idade que, após ficar duas horas
ouvindo mensagens e fantasias eróticas, se viu movido a violar uma menina, sua
vizinha, de apenas quatro anos de idade. O mais incrível é que um Juiz, numa
interpretação equivocada da lei, se negou a fechar as firmas que exploram o
serviço, com base no alegado direito à liberdade de expressão, assegurado
pela 1ª Emenda Constitucional. No nosso país, eram as empresas estatais de
comunicação que se aliavam a esta nefanda atividade, visando obter lucros. O
que confirma que "a crise mais grave e mais devastadora em uma sociedade,
qualquer que seja ela, não é a econômica, a social, a política. É a crise
moral."
Publicado em 01/01/2000
Pedro Paulo Rocha - MSc pela PUC-RJ; Fundador e Presidente da APARJ - Associação de Pais de Autistas do Rio de Janeiro; Fundador da ABRA - Associação Brasileira de Autismo
Autor do Livro "A Saga do Autismo"- 1ª Edição esgotada, 2ª ed. em publicação; Tradutor do Livro "Autismo" da NAS - editora Revinter ; Colaborador do Livro "Autismo e Outros Atrasos do Desenvolvimento"; Redator e Editor de "Autismo em Revista"; Membro do Advisory Board do Autism Research Review
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