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BRINCAR NA ESCOLA

Angela Cristina Munhoz Maluf

"O lúdico é o parceiro do professor"

Brincar hoje nas escolas, está ausente de uma proposta pedagógica que  incorpore o lúdico como eixo do trabalho infantil.  Minha aproximação com a realidade do Brincar nas escolas, levou-me a  perceber a inexistência de espaço para o desenvolvimento cultural dos  alunos. Esse resultado, apesar de apontar na direção das ações do professor,  não deve atribuir-lhe culpabilidade. Ao contrário, trata-se de evidenciar o  tipo de formação profissional do professor que não contempla informações nem  vivências a respeito do brincar e do desenvolvimento infantil em uma  perspectiva social, afetiva, cultural, histórica e criativa. 

É rara a escola que invista neste aprendizado. A escola simplesmente  esqueceu a brincadeira, na sala de aula ou ela é utilizada com um papel  didático, ou é considerada uma perda de tempo. E até no recreio, a criança  precisa conviver com um monte de proibições, como também ocorre nos prédio,  clubes, etc. 

Há um bom tempo, as escolas dão o devido valor ao Brincar. Valorizar neste  caso, significa cada vez mais levar o brinquedo para a sala de aula e  Também munir os profissionais de conhecimentos para que possam entender e  interpretar o Brincar, assim como utilizá-lo para que auxilie na construção  do aprendizado da criança. Para que isso aconteça, o adulto deve estar muito  presente e participante nos momentos lúdicos. 

Quem trabalha na Educação de crianças deve saber que podemos sempre  desenvolver a motricidade, à atenção e a imaginação de uma criança. 

"O lúdico é o parceiro do professor". 

Em qualquer época da vida de crianças e adolescentes e porque não de  adultos, as brincadeiras devem estar presentes.  Brincar não é coisa apenas de crianças pequenas, erra a escola ao subsidiar  sua ação, dividindo o mundo em lados opostos: de um lado o jogo da  brincadeira, do sonho, da fantasia e do outro: O mundo sério do trabalho e  do estudo. Independente do tipo de vida que se leve, todos adultos, jovens e  crianças precisam da brincadeira e de alguma forma de jogo, sonho e fantasia  para viver, 

A capacidade de brincar, abre para todos: crianças, jovens e adultos, uma  possibilidade de decifrar enigmas que os rodeiam. A brincadeira é o momento  sobre si mesmo e sobre o mundo, dentro de um contexto de faz-de-conta. Nas  escolas isto é comumente esquecido. 

Observo então que na escola não há lugar para o desenvolvimento global e  harmonioso em brincadeiras, jogos e outras atividades lúdicas. Ao chegar à  escola a criança é impedida de assumir sua corporeidade, passando a ser  submissa através de horas que fica imobilizada na sala de aula. 

Sendo assim, para o aluno se auto-realizar é quando ele atinge seus  objetivos preestabelecidos com o máximo de rendimento e o mínimo de  investimento de energia. Então o conceito de auto-realização tem a ver com a  eficácia pessoal. 

Então quando o professor organizar suas atividades de aula, deve selecionar  aquelas mais significativas para seus alunos. Em seguida o professor deve  criar condições para que estas atividades significativas sejam realizadas.  Destaca-se a importância dos alunos trabalharem na sala de aula em grupos,  interagindo uns com outros, e este trabalho coletivo facilitará o próprio  auto-desenvolvimento individual. Cabe ao professor em sala de aula  estabelecer metodologias e condições para desenvolver e facilitar este tipo  de trabalho. A identidade do grupo tem como resultado a integração de  atividades mais amplas e profundas, como do tipo de liderança, respeito aos  membros, condições de trabalho, perspectivas de progresso, retribuição ao  investimento individual, compreensão e ajuda mútua, aceitação. São estas as  qualidades que devem ser trabalhadas pelos professores e este deve estar  atento principalmente ao componente com o qual o corpo dialoga através do  movimento: a afetividade. A afetividade é um valor humano que apresenta  diversas dimensões: amor, respeito, aceitação, apoio, reconhecimento,  gratidão e interesse. 

Brincadeira e aprendizagem são consideradas ações com finalidades bastante  diferentes e não podem habitar o mesmo espaço e tempo.  Isto não está certo, O professor é quem cria oportunidades para que o  Brincar aconteça, sem atrapalhar as aulas. São os recreios, os momentos  livres ou as horas de descanso. 

No entanto constata-se que é através das brincadeiras que a criança  representa o discurso externo e o interioriza, construindo seu próprio  pensamento. O adulto transmite à criança uma certa forma de ver as coisas.  Quando apresentamos várias coisas ao mesmo tempo, ou então por tempo  insuficiente ou excessivo, estamos desistimulando o estabelecimento de uma  atitude de observação. 

Se quisermos que a criança aprenda a observar, se quisermos que ela  realmente veja o que olha, temos que escolher o momento certo para  apresentar-lhe o objeto, motivá-la e dar-lhe tempo suficiente para que sua  percepção penetre no objeto. Teremos também que respeitar o seu interesse. 

Insistir quando a criança já está cansada é propiciar o aparecimento de  certas reações negativas. Aprender a ver é o primeiro passo para o processo  de descoberta. É o adulto quem proporciona oportunidades para à criança ver  coisas interessantes, mas é indispensável que respeitemos o momento de  descoberta da criança para que ela possa desenvolver a capacidade de  concentração. 

Assim como a criatividade da pessoa interage com à criança poderá torná-la  criativa, a paciência e a serenidade do adulto influenciarão também o  desenvolvimento da capacidade de observar e de concentrar a atenção. 

Brincar juntos reforça laços afetivos. É uma maneira de manifestar nosso  amor à criança. Todas as crianças gostam de brincar com os professores,  pais, irmãos, e avós. A participação do adulto na brincadeira com a criança  eleva o nível de interesse pelo enriquecimento que proporciona, pode também  contribuir para o esclarecimento de dúvidas referentes as regras das  brincadeiras. A criança sente-se ao mesmo tempo prestigiada e desafiada  quando o parceiro da brincadeira é um adulto. Este, por sua vez pode levar a  criança a fazer descobertas e a viver experiências que tornam o brincar  mais estimulante e mais rico em aprendizado. 

Pode-se afirmar que o Brincar enquanto promotor da capacidade e  potencialidade da criança, deve ocupar um lugar especial na prática  pedagógica, tendo como espaço privilegiado, a sala de aula. 

A brincadeira e o jogo precisam vir à Escola. 

Muito pode ser trabalhado a partir de jogos e brincadeiras. Contar, ouvir  histórias, dramatizar, jogar com regras, desenhar entre outras atividades,  constituem meios prazerosos de aprendizagem. 

A medida que a criança interage com os objetos e com outras pessoas,  construirá relações e conhecimentos à respeito do mundo em que vive. Aos  poucos, a escola, a família, em conjunto, deveram favorecer uma ação de  liberdade para a criança, uma sociabilização que se dará gradativamente,  através das relações que ela irá estabelecer com seus colegas, professores e  outros pessoas. 

Para que isso aconteça, a criança não deve sentir-se bloqueada, nem tão  pouco oprimida em seus sentimentos e desejos. Suas diferenças e experiências  individuais devem, principalmente na escola, ter um espaço relevante sendo  respeitadas nas relações com o adulto e com outras crianças. Brincando em  grupo as crianças envolvem-se em uma situação imaginária onde cada um poderá  exercer papéis diversos aos de sua realidade, além de que, estarão  necessariamente submetidas a regras de comportamento e atitude. 

Santa Marli Pires dos Santos (1997) Diz: Brincar é a forma mais perfeita  para perceber a criança e estimular o que ela precisa aprender e se  desenvolver. 

Se a escola não atua positivamente, garantindo possibilidades para o  desenvolvimento da brincadeira, ela ao contrário, age negativamente  impedindo que esta aconteça. Diante desta realidade, faz-se necessário  apontar para o papel do professor na garantia e enriquecimento da  brincadeira como atividade social da infância. Considerando que a  brincadeira deva ocupar um espaço central na educação , entendo que o  professor é figura fundamental para que isso aconteça, criando os espaços,  oferecendo material e partilhando das brincadeiras. 

Agindo desta maneira, o professor estará possibilitando às crianças uma  forma de assimilar à cultura e modos de vida adultos, de forma criativa,  social e partilhada. 

Estará, ainda, transmitindo valores e uma imagem da cultura como produção e  não apenas consumo. 

Devemos ter espírito aberto ao lúdico, reconhecer a sua importância enquanto  fator de desenvolvimento da criança. Seria importante termos na sala de aula  um cantinho com alguns brinquedos e materiais para brincadeiras. Na verdade  qualquer sala de aula disponível é apropriada para as crianças brincarem.  Podemos ensinar as crianças também, a produzir brinquedos. O que ocorre  geralmente nas escolas é que o trabalho de construir brinquedos com sucatas,  fica restrito às aulas de arte, enquanto professores poderiam desenvolver  também este trabalho nas áreas de teatro, música, ciências etc, integrando  aos conhecimentos que são ministrados. 

É muito interessante ver uma criança transformar um simples copo de plástico  numa fantástica nave espacial com tripulantes e tudo. A sucata é um recurso,  se mostra como um lixo real e depois de transformada em algo passamos a dar  origem a objetos construtivos, expressivos. O brinquedo (sucata) é assim  denominado por se tratar de um objeto construído artesanalmente com diversos  materiais, como madeira, plástico, lata, borracha, papelão e outros recursos  extraídos do cotidiano. 

A tensão entre o desejo da criança e a realidade objetiva é que da origem ao  lúdico acionado pela imaginação. Assim podemos afirmar que as brincadeiras  por abrir espaços para o jogo da linguagem com a imaginação, se configura  como possibilidade da criança forjar novas formas conceber a realidade  social e cultural em que vive, além de servir como base par a construção de  conhecimentos e valores. Isto faz com que o Brincar seja uma grande fonte  de desenvolvimento e aprendizagem. 

É necessário que desde a pré-escola, as crianças tenham condições de  participarem de atividades que deixem florescer o lúdico. 

Podemos observar mais atentamente: 

*A importância da repetição ocorre durante a brincadeira, fato este que não  deve ser simplesmente ao prazer propiciado pelo exercício, mas trata-se  acima de tudo, de uma forma de assimilar o novo. 

*O valor da imaginação e o papel a ela atribuído quer no desenvolvimento da  inteligência das crianças, quer no processo de aprendizagem, do ponto de  vista da formação de conceitos( Compreender como ocorre o processo de  representação da criança e seu alcance, uma vez que ela consegue combinar  simultaneamente o pensamento, a linguagem e a fantasia). 

*Na brincadeira a criança tem a oportunidade não apenas de vivenciar as  regras impostas, mas de transformá-las, recriá-las de acordo com as suas  necessidades de interesse e ainda entendê-las. Não se trata de uma mera  aceitação, mas de um processo de construção que se efetiva com a sua  participação. 

A relação da brincadeira e o desenvolvimento da criança permite que se  conheça com mais clareza importantes funções mentais, com o desenvolvimento  do raciocínio da linguagem. 

Vygotsky ( 1999) revela como o jogo infantil aproxima-se da arte, tendo em  vista necessidade da criança criar para si o mundo às avessas para melhor  compreendê-lo, atitude que também define a atividade artística. 

Sendo a brincadeira resultado de aprendizagem, e dependendo de uma ação  educacional voltada para o sujeito social criança, devemos acreditar, que  adotar jogos e brincadeiras como metodologia curricular, possibilita à  criança base para subjetividade e compreensão da realidade concreta. 

É preciso que os professores se coloquem como participantes, acompanhando  todo o processo da atividade, mediando os conhecimentos através da  brincadeira e do jogo, afim de que estes possam ser reelaborados de forma  rica e prazerosa. 

Se os estímulos estiverem adequados ao estágio de desenvolvimento em que a  criança se encontra, as experiências vividas constituirse-ão em  aprendizagens ricas e duradouras. 

No contexto escolar, propor brincadeiras como aprendizagem, aproxima-se do  trabalho. Evidencia-se que o brincar transformado em instrumento pedagógico  na Educação, vai favorecer a formação da criança para cumprir seu papel  social, e mais tarde de adulto. 

Benjamin, Walter. Reflexões: A criança, o brinquedo, a educação. São Paulo, Summus, 1984 Kishimoto M. Tizuko. O brincar e suas teorias. São Paulo, Pioneira, 1998 Santos,Marli, dos Pires,Santa- (Org) Brinquedoteca, o Lúdico em diferentes contextos. Petrópolis, RJ, Vozes, 1997 Velasco, Gonçalves, Cacilda . Brincar o despertar psicomotor. Rio de Janeiro- RJ, Sprint, 1996 Winnicott, Sw- O brincar e a Realidade, Rio de Janeiro, RJ - Imago, 1975 Vygotsky, Lev Semenovich. A Formação Social da Mente, São Paulo, Martins Fonte, 199

Publicado em 01/01/2000


Angela Cristina Munhoz Maluf - Ms. em Ciências da Educação,docente de graduação e pós-graduação,psicopedagoga, especialista em Educação Infantil e Especial, escritora, palestrante e consultora de projetos.

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opinião

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