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MAINHEE! COMO SE ESCREVE CASA?

Isabel Cristina Hierro Parolin

Um breve estudo da dislexia

Dedico esse trabalho à minha filha JOANA a quem a vida proporcionou a oportunidade de interessar-se pelo tema.




"É claro que é com 's' meu filho. O s entre vogais tem som de 'z'".
Parece simples, mas não é tão fácil assim. Na palavra cozinha a letra z está entre vogais. E na palavra trazer? Quando se usa 's', 'z', 'ç', 'ss', 'x', 'ch'? Sabe-se que só pelo som não se chegará à uniformidade da grafia e muito menos a uma escrita acadêmica adequada.
A escrita faz parte da nossa humanização e torna-se difícil, cada vez mais, o convívio social sem essa linguagem. A escrita nos é tão familiar que nós não chegamos a perceber o quanto ela é complexa e cheia de regras.
Começamos a entender as funções da escrita quando pequenos e vamos aprofundando essa compreensão ao longo de nossas vidas. A criança vai tendo contato com a linguagem escrita ao observar os adultos trabalhando, ao identificar produtos por seus rótulos, ao ver cartazes, pessoas lendo histórias, recados, enfim. Aparentemente escrever é simples, porém, só quando começamos a nos expressar através dessa linguagem é que constatamos o tamanho da sua complexidade.
A criança quando começa a escrever, necessita compreender que há varias formas de se grafar a mesma letra: a de forma, a cursiva, a maiúscula, a minúscula e que, ainda existem as diferenças individuais na forma da escrita. Por isso que, no início da alfabetização, é melhor a criança usar a letra de forma, pela menor exigência de domínio motor e maior facilidade para grafá-las.
Apesar da escrita estar profundamente ligada ao nosso contexto social, ela não é natural como a linguagem oral. Como a criança é dotada geneticamente de instrumental para falar, o simples contato com a linguagem oral favorece o desenvolvimento da expressão oral da criança. A criança começa balbuciando e vai experimentando sons, formas de dizer determinada palavra, até conseguir falar adequadamente e ser compreendida. Esse processo leva alguns anos. Na linguagem escrita também temos um processo de experimentação até que se chegue à escrita correta das letras e finalmente à expressão adequada do que se quer registrar através da escrita.
O objetivo da escrita é permitir uma leitura e ler é recriar uma escrita e, consequentemente, uma idéia. Ser leitor, nesta perspectiva é desvelar e recriar a idéia do autor.
Geralmente é na escola que a criança aprende a ler e a escrever e é a professora que vai encadeando, em graus de complexidade, essa aprendizagem. Ao longo de nossas vidas, vamos percebendo o número enorme de regras, de exceções a estas mesmas regras, da necessidade de estrutura do texto para que ele cumpra a sua função de comunicar um ponto de vista.
Nem sempre a construção do leitor e da linguagem escrita é possível sob o ponto de vista pedagógico, apesar de fazer parte do rol de atribuições da escola e de ser duas aprendizagens diferentes. Essa aprendizagem pressupõe alguns aspectos de ordem pessoal e de desenvolvimento, inerentes à história de cada criança. É importante considerar e observar se a metodologia de construção da leitura e da escrita, está adequada àquela criança e devidamente trabalhada. Também pode ocorrer da criança estar com nível de maturidade incompatível com a proposta de alfabetização. Outra situação possível é que o contexto familiar da criança e sua bagagem cultural sejam pouco estimuladoras. A criança pode estar em um estágio de desenvolvimento global imaturo para essa aprendizagem, ou ainda, ter algum déficit que torne a aprendizagem incompatível com aquele momento de aprendiz, promovendo desvantagens importantes e com conseqüências marcantes na auto imagem da criança. Pode ser ainda que a criança esteja passando por um estresse emocional que a desgaste e impede a aprendizagem.
Isoladas as possibilidades acima descritas, a criança que apresenta uma dificuldade duradoura da aprendizagem da leitura e da aquisição do seu automatismo, pode ser disléxica.
Não devemos confundir com Disleria, que são as crianças que demoram para amadurecer para a leitura e escrita e nem com Disgrafia, que é uma desordem no traçado correto das letras, mas que não apresentam dificuldades simbólicas e perceptuais. 
A dislexia é um transtorno duradouro da leitura e se apresenta em vários graus de intensidade e importância. Estima-se que cerca de 2% a 8% das crianças em idade escolar sejam disléxicas. 
É observada e diagnosticada, geralmente, na fase de alfabetização, mas os sintomas podem ser observados antes do aparecimento da dificuldade propriamente dita. Os sinais mais freqüentes são:
- Muitas vezes é considerada infantil, preferindo brincar com crianças de idade inferior a sua;
- Dificuldade para compreender a linguagem falada;
- Dificuldade com orientação espaço-temporal. A criança confunde termos como: antes, depois, na frente, atrás, encima, embaixo, à direita, à esquerda, etc.
- Dificuldade para automatizar algumas aprendizagens como: andar, andar de bicicleta, amarrar tênis, subir escadas, etc.
- Dificuldade para integrar-se à grupos.
A tarefa de ler é muito difícil para o disléxico e requer muito esforço e concentração. Os disléxicos são prejudicados em sua capacidade para compreender pequenos textos, resenhá-los ou mesmo reescrevê-los. É comum que a criança com dislexia tenha importantes dificuldades ortográficas.
Uma crianças para ser considerada disléxica deve ser inteligente, normalmente escolarizada e livre de perturbações sensoriais, emocionais e neurológicas. Existem pesquisas que demonstram uma incidência significativamente maior entre os meninos, três meninos para cada menina, e é indiferente às classes sociais e raças. Não há conhecimento de dislexia nas escritas ideográficas, como o Japonês e Chinês.
Para pais e profissionais da educação não é tão importantes conhecer as causas da dislexia, mas sim como trabalhar com crianças que apresentem essa dificuldade. 
O fator genético é apontado como um indicador causal. A criança com dislexia apresenta uma perturbação em sua motricidade geral, na orientação esquerda-direita, na percepção temporal, na elaboração de imagens globais afetando a compreensão da linguagem oral e escrita, no esquema corporal e lateralidade. Algumas crianças parecem ter dificuldade visual e em muitas têm distúrbios do sono e são agitadas.
A criança pode confundir o traçado das letras, principalmente as muito parecidas como o p e o b. Não é raro a criança ficar muito preocupada em decifrar os símbolos escritos e perder o significado da palavra. Outra característica é a leitura silabada, sem respeito a pontuação, acentuação, tornando a leitura impossível de ser compreendida.
Ao escrever podem ser lentos, com desorganização gráfica, escrita vacilante e confusa, com muitos erros, com letras, sílabas ou palavras escritas em espelho, invertidas, aglutinadas, com omissões ou acréscimo de letras, tornando a visualização do texto esteticamente feio e difícil de ser lido e compreendido.
Diante desse rol de sintomas, geralmente, a criança disléxica tem baixa auto-estima, não acreditando nela mesma e com baixa resistência para viver frustrações.
É importante ressaltar que as dificuldades aqui descritas fazem parte de um estágio inicial da aprendizagem da leitura e da escrita. Só será considerado disléxico o aluno com a persistência destes indicadores, apesar de uma adequada escolarização, de um bom estímulo para a leitura e uma boa estrutura doméstica para suporte. 
O diagnóstico de dislexia é complexo e deve ser construído em parceria com a escola, com outros profissionais que estejam envolvidos e a família da criança. Alerto e reafirmo: não é suficiente a criança não conseguir ler para ser considerada disléxica! A história evolutiva da criança, tipificações de seu comportamento operatório e também o grau da dificuldade, somados as observações de todos os envolvidos, construirão o diagnóstico e os procedimentos de reeducação. O diagnóstico não deve ser encarado como um rótulo final, mas como o início de uma caminhada recuperadora.
É importante valorizar o potencial de inteligência da criança, motivando-a a vencer sua dificuldade. 
Entender o que acontece com ela e oferecer adequada e amorosa parceria é fundamental.
Nós precisamos aprender a valorizar as facilidades dos nossos filhos e alunos, suas áreas de talento e não somente suas dificuldades. No entanto, devemos ter cuidado para não superprotegê-los. Atender aos aspectos emocionais da criança é essencial, mas ela precisa, e muito, de instrumentos pedagógicos para obter sucesso em suas aprendizagens e potencializar o Ser Aprendiz... e essa tarefa é trabalhosa, muitas vezes cansativa e requer uma energia amorosa e sábia.
Há várias formas de intervenção e uma criança adequadamente atendida em suas dificuldades pode surpreender...

Bibliografia de apoio: GARCIA, Jesus N. Manual de dificuldades de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. STELLING, Stella. Dislexia. Rio de Janeiro: Revinter, 1996.

Publicado em 01/01/2000


Isabel Cristina Hierro Parolin - Pedagoga pela PUC-PR, Especialista em Psicodrama e Psicopedagogia e Mestre em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Atende crianças e jovens em seu processo de aprender ou de não-aprender, assim como a suas famílias, objetivando ações educativas. Consultora institucional, em todo o Brasil, de escolas públicas e privadas. Professora em cursos de pós-graduação em psicopedagogia e áreas correlatas. Pesquisadora do grupo “Aprendizagem e Conhecimento na ação educativa” da PUCPR. Palestrante para pais e professores. Conselheira da Associação Brasileira de Psicopedagogia PR-SUL. Participou de eventos educacionais no Japão, Áustria, Bulgária, Alemanha e Espanha. Autora de vários livros e artigos em revistas, jornais e sites relacionados à aprendizagem e à educação.

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