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LUTO INFANTIL: CONCEITO, COMPREENSÃO E ELABORAÇÃO DA MORTE PARA AS CRIANÇAS: ORIENTANDO PAIS E PROFESSORES
Kátia Regina Beal Rodrigues
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estudo de caso
RESUMO
No âmbito familiar, uma dificuldade grande para os pais está exatamente na necessidade que a criança tem de fazer perguntas muitas vezes complexas. Colocam questões profundas sobre o ser humano, sobre a vida e sobre a morte. Quando alguém da família de uma criança morre, ainda que se tente omitir ou negar, ela irá perceber por meio das atitudes transformadas dos familiares ao redor. O fato é que cedo ou tarde ela descobrirá. Omitir-lhe a verdade seria algo grave, seria como ignorá-la só porque ela não fala como os adultos, como excluí-la da família, e pior ainda, se as pessoas mais próximas em que ela deposita toda sua confiança não forem capazes de falar sinceramente sobre a morte, ela tomará isso como um modelo a seguir e nem ousará perguntar a respeito daquilo que sua percepção lhe diz. O que o adulto não sabe, é que as crianças questionam sem angústia a respeito da morte até cerca de sete anos. Por volta dos três anos de idade esta questão começa a aparecer. Existem animais que morrem em torno delas, elas ouvem histórias, conversas, o conceito de que as coisas acabam, e que os limites existem, já estão estabelecidos desde muito cedo. O presente estudo foi realizado por meio de pesquisa bibliográfica e estudo de caso com um menino de 6 anos que perdeu a mãe.
Palavras-Chave: Luto infantil, morte, família.
ABSTRACT
In the familiar scope, a great difficulty for the parents is accurately in the necessity that the child has to make questions many complex times. They place deep questions on the human being, the life and the death. When somebody of the family of a child dies, despite if it tries to omit or to deny, it will go to perceive around by means of the attitudes transformed of the familiar ones. The fact is that early or late it will discover. To omit it to it truth would be something serious, would be as to only ignore it because it does not speak as the adults, as to exclude it of the family, and worse still, if the people next in that it it deposits all its confidence will not be capable of to speak sincerely on the death, it will take this as a model to follow and nor will dare to ask regarding what its perception it says to it. What the adult does not know, is that the children question without anguish regarding the death until about seven years. For return of the three years of age this question starts to appear. Animals exist that die around them, they hear histories, colloquies, the concept of that the things finish, and that the limits exist, already they are established since very early. The present study it was carried through by means of bibliographical research and study of case with a boy of 6 years who lost the mother.
Key-Words: I children fight, death, family.
1 Introdução
A morte pertence à condição humana. A morte da pessoa amada é não apenas uma perda, como também a aproximação da própria morte, uma ameaça. O significado da morte é pessoal e internalizado, evocando as vulnerabilidades pessoais a ela associadas.
Além do desajustamento social, os sentimentos que acompanham a morte são intensos e multifacetados, afetando emoções, corpos e vidas por um longo período de tempo.
Segundo Bromberg (2000) do ponto de vista individual, as tentativas de domínio da morte, ou seja, de negação da mortalidade, muitas vezes encontram apoio em crenças religiosas que retratam a morte como uma passagem, um estado transitório e não a cessação da vida. Esta última concepção provoca o surgimento de fortes defesas, uma vez que sem elas seria impossível imaginar qualquer espécie de futuro.
2 A Experiência da Perda
Segundo Kübler-Ross (1998), há uma reação emocional das pessoas frente à possibilidade da morte, distribuída em cinco estágios distintos. As pessoas não esperam necessariamente a chegada da fase final de sua doença para manifestar suas emoções. A possibilidade da morte é suficiente para provocar-lhes tais emoções. Também não é regra que todos passem pelos cinco estágios, ou podem passar, porém reagindo de forma singular. Mas de qualquer forma, há um processo psicológico envolvido no processo de adoecer, e segundo a autora referida pode ser reconhecido.
2.1 Os Cinco estágios emocionais causados pela morte iminente segundo Elizabeth Kübler-Ross (1998, p.76):
- negação: ajuda a aliviar o impacto da notícia, servindo como uma defesa necessária a seu equilíbrio, geralmente em pacientes informados abruptamente e prematuramente. O médico deve respeitar, porém ter o cuidado de não estimular, compactuar ou reforçar a negação.
- raiva: manifesta-se quando o paciente já assimilou seu diagnóstico e prognóstico, mas se revolta por ter sido escolhido, tenta arranjar um culpado por sua condenação, geralmente se mostra muito queixoso e exigente, procurando ter certeza de não estar sendo esquecido, reclamando atenção, talvez como último brado.
- negociação: há a tentativa de negociar o prazo de sua morte, por meio de promessas e orações. A pessoa já aceita o fato, mas tenta adiá-lo. Deve-se respeitar e ajudar o paciente.
- depressão: o paciente aceita o fim próximo, fazendo uma revisão da vida, mostrando-se quieto e pensativo. É um instrumento na preparação da perda iminente, facilitando o estado de aceitação. Neste momento, as pessoas que o acompanham devem procurar ficar próximas e em silêncio.
- aceitação: a pessoa espera a evolução natural de sua doença. Poderá ter alguma esperança de sobreviver, mas não há angústia e sim paz e tranqüilidade. Procura terminar o que deixou pela metade, fazer suas despedidas e se preparar para morrer.
3 O conceito de morte para a criança
Muitos adultos acreditam que a criança não entende nada sobre a morte e deve ser poupada de saber que alguém próxima a ela morreu. Entretanto, é provável que esta mesma criança já tenha perdido algum bicho de estimação ou assista alguma cena de morte em desenhos ou noticiários.
Quando a criança perde uma pessoa querida de sua família como pai, mãe, irmão ou irmã, avós, ela fica triste, confusa. Ocorre que esta mesma morte é sofrida por seus familiares, que doloridos, estão sem condições de manter a intensidade de cuidado e atenção que antes dirigiam a ela. O importante é que, passado este momento de crise, ela volte a sentir-se segura e bem cuidada.
Segundo Nunes (1998, p.15) nas semanas seguintes à perda, as crianças podem apresentar tristeza profunda ou acreditem que o familiar que morreu permanece vivo. Se, no entanto, evitar mostrar tristeza ou persistir a longo prazo negando a morte de seu familiar querido poderá vir a ter sérios problemas no futuro.
A raiva após a morte de alguém essencial para a segurança da criança é uma reação esperada que pode se manifestar por meio de comportamento irritadiço, pesadelos, medos ou agressão dirigida aos familiares sobreviventes. De qualquer maneira, sabemos que a reação da criança ao luto está bastante relacionada à forma como os pais ou pai sobrevivente e outros parentes abordarão esta questão com ela nas semanas e meses que sucederão a perda. (NUNES, 1998, p. 25).
Nunes (1998) acrescenta que quando o adulto oculta dela a verdade sobre a morte, pode deixá-la confusa e desamparada, pois possivelmente ela perceberá que algo aconteceu e que todos estão agindo de forma diferente.
A criança deve ficar à vontade para exprimir os seus sentimentos. Não devemos obrigá-la a ir ao enterro ou velório caso ela esteja assustada. Poderá futuramente encontrar outras maneiras de se despedir e recordar através de fotos e lembranças. Caso ela manifeste desejo de participar do velório ou enterro, informe-a sobre o que verá, explique a razão de estarem ali, deixando-a livre para perguntar e para ficar o tempo que desejar.
O fato é que mesmo a criança que não sofreu perdas necessita do adulto para falar sobre a morte e esclarecer suas dúvidas. Converse com ela procurando ser o mais honesto possível. Falar em céu ou que o morto foi viajar ou dormiu pode criar a falsa expectativa de que regressará, dificultando o entendimento da perda como algo definitivo. Além disso, temos que ter o cuidado de respeitar o seu tempo para compreender a morte, levando em consideração o seu desenvolvimento cognitivo. Crianças pré-escolares acreditam que a morte seja temporária e reversível, tal como acontece em muitos desenhos animados nos quais os personagens morrem e voltam a viver. (PAPALIA; OLDS, 2000, p.365).
Segundo Papalia; Olds (2000) entre cinco e nove anos a morte é percebida como irreversível, mas não como algo natural e universal. Nesta idade, as crianças não conseguem imaginar que elas ou alguma pessoa conhecida possa morrer. A morte é vista como algo distante, que só ocorre com os outros, a menos que haja uma perda de alguém muito próximo. Somente entre nove e dez anos a morte passa a ser percebida como uma interrupção das atividades dentro do corpo, que faz parte da vida, que é natural.
4 Significados
Segundo Bromberg (2000) o significado dado à morte pela criança varia de acordo com alguns fatores, entre os quais o primeiro a ser considerado é a idade, ou melhor, o momento de seu desenvolvimento psicológico. Os outros fatores são a forma com que os adultos lidam com a perda e o binômio quantidade/qualidade de relação tida pela criança com a pessoa falecida. Assim que a criança tem idade suficiente para estar vinculada, pode ter consciência da possibilidade de perder essa pessoa. A autora enfatiza que o medo da morte é originado no medo de perder a pessoa amada, de romper vínculos.
Segundo Aberasturi (1978) citado por Bromberg (2000, p.73) a criança tem consciência da morte desde o início da infância, mas pode não ser identificada pelos adultos porque é sempre expressa com os recursos da criança. Nem sempre ela fala sobre morte, mas pode representá-la lúdica ou graficamente, ou até mesmo na forma de um sintoma. A criança pode até captar, por meio do inconsciente, mortes ocorridas em outras gerações e que venham a constituir um segredo familiar do qual ela também faz parte.
Cabe ao adulto tentar reconhecer a inabilidade que a criança tem em falar sobre esse assunto ou entender esse processo, para que se dê a compreensão da criança sobre a morte. Para que a criança compreenda a morte, com os recursos que sua idade permite, ela não deve ser excluída da experiência da perda. Isso faz com que ela perceba a realidade. Naturalmente, essa realidade será a que a criança puder fazer, encontrando comportamentos e ações que dêem um significado à perda.
Bowlby (1981) citado por Bromberg (2000, p. 73) coloca que a morte existe para a criança sob muitas formas, como um animalzinho, que morto, mostra-se contrário a tudo o que a criança sabe sobre ele. Uma conseqüência natural a isto é a curiosidade da criança sobre o que acontece nesse estado e uma aceitação das emoções daí emergentes: sentir-se triste, desejar a permanência do morto, desejar fazê-lo reviver.
5 Desenvolvimento cognitivo infantil
Piaget (1967) citado por Nunes (1998, p. 80) conceituou o desenvolvimento como um processo de equilibração progressiva, que tende a formas cada vez mais aperfeiçoadas até a aquisição do pensamento operacional formal. O equilíbrio refere-se à forma pela qual o indivíduo lida com a realidade na tentativa de compreendê-la, de como organiza seus conhecimentos em sistemas integrados de ações ou crenças, com a finalidade de adaptação. O desenvolvimento consistiria, então, numa passagem constante de um estado de equilíbrio para um estado de desequilíbrio, resultando num equilíbrio superior, tendo a criança, então, desenvolvido uma maneira mais eficiente de interagir com o seu ambiente.
Com o propósito de definir essas diferentes formas de interação, Piaget (1964) citado por Bromberg (2000, p.80) divide o desenvolvimento intelectual da criança em quatro grandes estágios seqüenciais: a) sensório-motor (0 - 2 anos) no qual ainda não há um conceito formado sobre morte; b) pré-operacional (2 - 7 anos), em que a morte é reversível; c) operacional concreto (7 - 11 anos), em que a morte é irreversível, com explicações fisiológicas e d) operacional formal (a partir dos 11 - 12 anos) quando a morte é irreversível, universal, pessoal, mas distante; as explicações são de ordem natural, fisiológica e teológica. As idades cronológicas, durante as quais se espera que as crianças desenvolvam comportamentos representativos de um dado estágio, não são fixas. Elas podem variar de acordo com a experiência individual e o potencial hereditário.
Conforme Piaget, percebemos que cada estágio possui uma estrutura diferente que possibilita à criança representar certos conceitos. Dentre esses conceitos está a reversibilidade, que consiste na capacidade de reverter mentalmente um tipo de raciocínio, ou seja, partir de determinado ponto e voltar a ele fazendo uma operação inversa. Como quando fazemos certas transformações e somos capazes de restaurá-las, fazendo voltar ao estágio original. A reversibilidade seria a capacidade de voltar, de retornar ao ponto de partida, no caso da morte, como se fosse possível retornar à vida (semelhante ao que ocorre nos desenhos animados), assim como a água que se transforma em gelo e que ao ser aquecida volta à forma original. Aparece, portanto como uma propriedade das ações do sujeito, possível de se exercerem em pensamento ou interiormente. As crianças adquirem este tipo de raciocínio durante o estágio das operações concretas.
Segundo Nunes (1998) as crianças entendem a irreversibilidade da morte apenas no estágio operatório concreto, embora seja este caracterizado, do ponto de vista piagetiano, pela reversibilidade. A criança precisa desta lógica para lidar com a idéia da morte como algo permanente e irreversível.
Outros dois conceitos citados por Piaget que parecem fundamentais para o desenvolvimento do conceito de morte são a não-funcionalidade e a universalidade. A não-funcionalidade diz respeito à compreensão de que as funções vitais cessam na morte, enquanto a universalidade tem a ver com a compreensão de que todas as coisas vivas morrem, ou seja, de que a morte é um evento inevitável (Nunes, et all, 1998).
Wass (1989) citado por Bromberg (2000, p. 86) acrescenta que também identifica a relação dos componentes irreversibilidade, não-funcionalidade e universalidade com o conceito de morte. Ela constata a existência de três etapas: na primeira (até 5 anos) não há noção de morte definitiva, sendo esta compreendida como separação ou sonho e como um evento gradual e temporário. Na segunda etapa (5 a 9 anos), há uma forte tendência a personificar a morte, que é percebida como "alguém" que vem para levar as pessoas. É compreendida como irreversível, porém evitável, e também, como algo que acontece a todos e, sobretudo a ela mesma. Somente na terceira etapa (9 a 10 anos), a criança reconhece a morte como cessação das atividades do corpo e como inevitável.
Reforçando o conceito de personificação, Kübler-Ross (1998) afirma que crianças consideram a morte como um homem ou um lobisomem que vem para levar as pessoas. A morte em si está ligada a uma ação má, a um acontecimento medonho, a algo que clama por recompensa ou castigo.
Os conceitos de irreversibilidade, não-funcionalidade, universalidade e personificação estão relacionados com o nível de desenvolvimento cognitivo. Em geral, parece que a maioria das crianças saudáveis têm o conceito de morte entre os 5 e 7 anos, visto que é nesta idade que a maior parte delas faz a transição do pensamento pré-operacional para o operacional concreto. Entretanto, a cultura pode exercer grande influência na formação dos conceitos em geral e do conceito de morte em particular. (NUNES, 1998, p.16).
6 Impactos do luto infantil
Segundo Bromberg (2000, p. 60) o luto infantil é freqüentemente considerado um fator de vulnerabilidade a muitos distúrbios psicológicos na vida adulta. Esses distúrbios vão desde a excessiva utilização de serviços de saúde, por tê-la com freqüência debilitada, até aumento no risco de distúrbios psiquiátricos.
Bowlby (1981) citado por Bromberg (2000) acrescenta que a curto prazo, ainda na infância, há visíveis conseqüências da perda com má resolução. Alguns dos traços da má elaboração são muito semelhantes aos encontrados em casos de luto de adultos, ou então, de ausência de luto, como ansiedade persistente, medo de outras perdas (principalmente de um dos pais), medo de morrer também, esperança de se reunir ao morto, desejo de morrer, culpa persistente, hiperatividade, cuidados compulsivos, euforia e despersonalização. “A intensidade com que esses traços vão tomar forma está estreitamente vinculada às condições do ambiente, quanto a serem favoráveis ou não a um curso saudável do luto. É importante assinalar que, as condições do funcionamento familiar contribuem para a qualidade da elaboração do luto”. (BOWLBY, 1981 citado por BROMBERG, 2000).
Bromberg (2000) acrescenta que para o psiquismo infantil a relação com a pessoa morta dá o tom quanto a uma evolução adequada ou não para a experiência da perda e a resolução do luto.
7 A morte da criança na família
A morte de um filho, como é sabido, é uma das perdas mais dolorosas. Pais experimentam sentimento de angústia e, muitas vezes, culpa, e todos os sentimentos são potencializados no caso de morte violenta. Sentimentos encontrados em grande maioria de pais que perderam seus filhos em uma situação trágica incluem culpa por não terem sido capazes de prever e evitar a morte de seus filhos, ou por não terem sido eles a morrer; o desejo de justiça, que aliado à impotência dos pais frente à situação traz revolta e ressentimento, algumas vezes trazendo fantasia de vingança; depressão ou tristeza constante e perda de esperança no futuro. A tristeza constante não é algo, no entanto, de que os pais desejam se livrar, pois alguns crêem que se o luto se for, irão também às lembranças, e essa pode ser uma das razões pelas quais aos pais são os indivíduos que mais levam tempo para retomar suas vidas após uma morte.
O comportamento, logo após a morte, entre pais e mães é diferenciado, em grande parte pela expectativa social em relação a eles. É esperado que o pai seja controlado, que não demonstre luto em excesso, já que deve ser ele o responsável pelo gerenciamento da família nessa situação. À mãe é permitido expressar mais abertamente sua tristeza, e é ela também quem recebe mais apoio das pessoas próximas.
Maneiras encontradas pelos pais, um tempo após a morte do filho, para voltar ao cotidiano incluem manter contato com outras pessoas, manter-se ativo, manter uma visão positiva da vida e uma crença religiosa ou filosófica e ajudar a outras pessoas.
8 Estudo de caso
8.1 Metodologia
O presente estudo de caso foi realizado em consultório particular de psicologia, trabalhando e elaborando a questão do luto infantil utilizando a abordagem cognitivo-comportamental. Foram realizadas sessões semanais de psicoterapia, totalizando uma consulta e nove sessões.
8.2 Participante
Participou do presente estudo, Paulo um menino de seis anos que perdeu a mãe em um acidente de carro. O menino que sempre foi muito alegre, carinhoso e amoroso, passou a apresentar comportamentos inferiores à sua idade (regressão) e um complexo sentimento de culpa, pois a mãe faleceu a caminho de outra cidade onde assistiria a um jogo de futebol do filho. Seus pais eram separados e atualmente ele mora com os avós e com uma tia. A criança veio à clínica trazida pelos avós com as seguintes queixas: tristeza pela morte da mãe, dificuldades na escola, isolamento, não dorme mais sozinho, só quer dormir no quarto da mãe, sentimentos de culpa e dificuldade de socialização (deixou de fazer as atividades preferidas como jogar futebol).
8.3 Instrumentos
Para avaliação psicológica foi utilizada a anamnese (entrevista) com os avós na consulta. Após a consulta, a criança foi entrevistada e iniciou-se o processo psicoterapêutico. Utilizamos recursos lúdicos (brinquedos, jogos de computador) e testes de avaliação do desempenho de aprendizagem uma vez que a criança havia perdido o interesse nas atividades escolares: TDE, Teste de Desempenho Escolar, de Stein, 1994 que é um instrumento psicométrico que busca oferecer de forma objetiva uma avaliação das capacidades fundamentais para o desempenho escolar, mais especificamente da escrita, aritmética e leitura, e o RAVEN INFANTIL de Angellini, 1999, que é um teste não verbal para avaliação da inteligência e permite avaliar a inteligência geral se for usado em conjunto com um teste de vocabulário. Destina-se a crianças de 5 anos a 11 anos e meio, deficientes mentais e pessoas idosas. Indicado para avaliação do desenvolvimento intelectual na escola, em diagnósticos clínicos, em estudos interculturais e antropológicos. Útil também para sujeitos portadores de deficiências físicas, afasias, paralisia cerebral ou surdez, bem como sujeitos que não dominam a língua nacional.
Foi utilizado também o livro “A História de uma Folha” (BUSCAGLIA, 2002) e “Gabi” (PANIAGO, 2002) para trabalhar a questão morte de maneira leve e lúdica.
8.4 Avaliação Psicológica
Identificamos por meio de avaliação psicológica sentimentos de insegurança, retraimento, descontentamento, regressão e inadequação, como se usasse uma máscara social. Apresentou relutância em estabelecer contato com o ambiente, afastamento de trocas interpessoais, falta de tato ou oposição, timidez e receio nas relações com os outros, preocupação com o contato. Demonstrou uma necessidade interna de receber calor emocional do exterior e de expressar acessibilidade.
Apresentou uma dificuldade de se mostrar no contato interpessoal, conflitos e medo de rejeição. Demonstra controle da fantasia, minuciosidade, preocupação com detalhes, necessidade de chamar a atenção e de ser visto, de ser notado. Contudo, expressa calor e afeto dentro de sua casa.
Demonstrou um sentimento de forte pressão ambiental, pela realização na escola, desejo de realizar e de ter sucesso.
Revelou ser uma pessoa auto-suficiente, mas sente-se separado do elemento nutridor e falha na capacidade de perceber a realidade, sentimentos de desenraizamento e separação, falta de firmeza, estado mais primitivo com reduzida capacidade de objetivação ou falta de diferenciação do eu, como se não tivesse os pés no chão.
Revelou ainda sentimentos de ambivalência afetiva e de pressão externa e dificuldade de expressão do eu, maior satisfação na fantasia e contato com a realidade menos que o desejável, ambição, autopreocupação, entusiasmo, idealismo, arrogância, superficialidade, equilíbrio precário da personalidade por efeito da frustração em não conseguir atingir as necessidades básicas (comum em crianças pequenas).
Demonstrou controle rigoroso sobre a vida impulsiva, inadequação das defesas do ego, conflitos profundos, dificuldade para relaxar, repressão dos estímulos anteriores. Revela imaturidade e dependência comum em crianças de até 12 anos. Revela também o desejo de obter aprovação e aceitação social. Preocupações sexuais. Intelectualmente superior.
8.5 Procedimentos
Após a avaliação, foi elaborado o laudo psicológico e realizada a devolução aos avós, no qual foram traçadas as estratégias de intervenção com a utilização de técnicas cognitivo-comportamentais para mudança de pensamento e de comportamento da criança enlutada, tais como: reestruturação cognitiva, resolução de problemas, treinamentos em habilidades sociais e assertividade, visando modificar os pensamentos distorcidos, objetivando assim pensamentos e comportamentos mais funcionais e adaptativos. A criança sendo reforçada no consultório generaliza para os demais aspectos da sua vida.
Foi aplicada a técnica “treinamento de pais” direcionada aos avós para a compreensão do luto infantil e dos comportamentos do neto, orientando-os a como agir com a criança.
Foram realizadas também visitas à escola para avaliação e análise dos comportamentos de Paulo em sala de aula e orientação aos educadores, em como trabalhar a questão “luto” em sala de aula, sendo repassados os seguintes direcionamentos, conforme apontados por Kovács (2008):
•Acolher a criança;
•Não deixá-la sozinha, pois é importante que ela saiba que tem um adulto atento ao seu sofrimento, mas ela não deve ser forçada a ser abraçada, falar ou participar de atividades;
•Mais do que dizer algo para consolá-la, deixar a criança expressar suas emoções e só ouvir;
•Responder às perguntas da criança, sem eufemismos como “foi viajar”, “está dormindo”, “foi para o céu”;
•Perguntar se ela quer falar aos colegas o que aconteceu, ou prefere que você faça;
•Perguntar aos colegas se alguém quer compartilhar sua experiência semelhante; a troca de experiência conforta e é um incentivo para deixar aflorar os sentimentos;
•Sugira que os colegas chamem a criança para brincar, mas sem insistir;
•Se o enlutado estiver agressivo, deixe claro que todos entendem e respeitam sua dor, mas que isso não lhe dá o direito de agir com violência e descontar nos colegas;
•Explique o que é o cemitério, velório, dia de Finados;
•Se a escola perder um funcionário ou professor, organize um ritual de homenagem com a participação de todos, pode ser uma cerimônia simples, como plantar uma árvore, para se lembrar da pessoa, um desenho coletivo ou individual;
•Sugira para a criança levar fotos para a escola para diminuir o desconforto da ausência;
•Se a criança chorar, explique aos colegas o motivo, oriente-os como agir quando se vê alguém aos prantos: ficar por perto e oferecer ajuda ou um lenço de papel;
•Incentive-os a falar da tristeza e da raiva que surgem pela perda e o que cada um sentiu quando alguém morreu;
•Nunca reprima ou tente conter o choro, pois as emoções fazem parte da vida e precisam ser expressadas.
8.6 Resultados
Por meio da intervenção psicoterapêutica, Paulo apresentou muitas mudanças de pensamento e de comportamento, tais como: compreendeu o luto, tomou a iniciativa de visitar o túmulo da mãe no cemitério, voltou a dormir em seu quarto, voltou a jogar futebol demonstrando muita animação com as aulas na escolinha de esportes, realizando aulas e jogos duas vezes por semana e voltou a ter prazer em estudar, convidando os coleguinhas para estudar em sua casa. Passou também a visitar freqüentemente o pai perfazendo o trajeto em que sua mãe foi vitimada. Os avós relataram as mudanças com os colegas e com a família, sendo que o retorno das atividades da criança provocou mudanças na família, estando mais unidos e mais fortes para a superação da perda da mãe, irmã e filha.
No fechamento da terapia os avós relataram a importância da intervenção psicoterapeutica para a elaboração do luto tanto do neto como da família. Após o fechamento, ocorrem mensalmente sessões de seguimento com a criança e a família para manutenção dos resultados obtidos.
9 Considerações finais
As questões de enlutamento, à medida que afetam o comportamento da criança, mudando o curso de seu desenvolvimento devem ser avaliadas com extremo cuidado, para que possa ser delineada a intervenção necessária. Se a elaboração do luto não for feita adequadamente, poderá causar sérios comprometimentos a curto e a longo prazo.
A conclusão de uma conversa franca com uma criança, sobre a morte, sem medo, tem sempre um tom positivo, só o fato de estar perto, falando a respeito e ouvindo, já é positivo. Todos os seres humanos aceitam a morte de uma forma singular. Devemos respeitar, no mínimo, a maneira que as crianças encontram para superar o momento da morte. Elas têm perguntas e buscam o conhecimento, e nós, adultos que muitas vezes, acreditamos que sabemos muito, ouvimos delas as melhores respostas para as perguntas que não saberíamos responder.
10 REFERÊNCIAS
BROMBERG, Maria Helena. A Psicoterapia em situações de perdas e luto. Campinas: Livro Pleno, 2000, 174p.
BUSCAGLIA, Léo. A História de Uma Folha, São Paulo: Record, 2002.
KOVÁCS, Maria Julia. Criança Também Fica de Luto. Revista Nova Escola, Especial Educação Infantil, n.17, 2008.
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1998, 296p.
NUNES, Deise Cardoso (et all). As Crianças e o Conceito de Morte. Instituto de Psicologia UFRGS, Porto Alegre, 1998, 25p.
PAPALIA, Diane, OLDS, Sally Wendkos. Desenvolvimento Humano. 7. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. 684p.
PANIAGO, Leonor. Gabi. Goiânia - GO: Kéops, 2002.
Publicado em 19/05/2010 15:18:00
Kátia Regina Beal Rodrigues - Psicóloga Clínica, Especializanda em Psicologia Clínica na
Abordagem Cognitivo-Comportamental pela UFU – Universidade Federal de Uberlândia – MG; Especialista em Práticas Docentes e Gestão na Educação Básica – FAR - Faculdade Almeida Rodrigues; Professora das Disciplinas de Psicologia da Educação I e II do curso de Pedagogia da FAR – Faculdade Almeida Rodrigues.
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