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UMA ESCUTA AO DISTÚRBIO GLOBAL DO DESENVOLVIMENTO

Ariane de Oliveira Camargo

Resumo
O trabalho a seguir trata-se do relato de um caso que atendi durante o curso de Psicanálise e Transdisciplina. Refere-se a um garoto, de dez anos, com distúrbio global do desenvolvimento. O objetivo deste artigo é relatar o caso clinico enfatizando as particularidades da relação entre a mãe e a criança para a constituição do sujeito. Além disso, objetivei, a partir da clínica, verificar como a teoria psicanalítica pode auxiliar no tratamento de crianças com essa problemática. Com o decorrer dos atendimentos à criança e uma escuta paralela à mãe, percebi uma melhora daquele que era visto como um garoto-problema.

Palavras-chave: escuta; distúrbio global do desenvolvimento; psicanálise

Neste trabalho, relatarei o caso de um paciente de dez anos que apresentava um distúrbio global no desenvolvimento. Este foi atendido, por mim, em um período de dezesseis meses. No início, os atendimentos ocorriam uma vez por semana e, depois, passaram para duas vezes por semana. Concomitante aos atendimentos, realizei na instituição - especializada em atender crianças com distúrbios globais do desenvolvimento - o curso de aperfeiçoamento em Psicanálise e Transdisciplina, que tinha como parte de sua carga horária os atendimentos clínicos supervisionados pela professora e psicanalista responsável pela instituição.
Atendi a outros pacientes, no estágio supervisionado, porém esse foi o que mais me inquietou e me questionou, em relação à minha prática enquanto psicóloga, tanto pelas dificuldades enfrentadas ao longo dos atendimentos, como pela tentativa de entender o que se passava com ele. Objetivei neste relato destacar a relação entre a mãe e a criança, e a importância dessa relação para a constituição do sujeito. Além disso, objetivei verificar como a teoria psicanalítica auxilia nos atendimentos a crianças com distúrbios globais do desenvolvimento. 
Seguirei fazendo relato e análise do que pude compreender, durante os atendimentos e supervisões. Evidenciarei em itálico algumas falas que registrei, após os atendimentos. Para embasar o relato, utilizarei a teoria psicanalítica.

Caso clínico e discussão
A mãe de F. procurou o atendimento tendo como queixa o fato de seu filho ser agitado, ter comportamentos e questionamentos inadequados para sua idade, ser muito carente. Além disso, tinha uma fala descontextualizada e, às vezes, falava sozinho, esquecia as coisas e não conseguia raciocinar, nem assimilar o que era bom para ele. Em casa, ele gritava e os vizinhos achavam que ele era louco. A mãe entendia que ele não era louco, mas disse ter consciência de que ele não é normal.
Nas primeiras entrevistas, contou-me a história de vida dela. Teve um pai que bebia muito e era muito violento, de sorte que ela, por várias vezes, “sumia” de casa e só voltava quando ele tinha se acalmado. Sua mãe tivera dezesseis filhos, dos quais seis haviam morrido, quando ela ainda era pequena. Dentre esses dez, cinco eram homens e cinco, mulheres. Aos 10 anos, separou-se desse pai, junto com a mãe e os irmãos, e foi morar com o irmão mais velho. Este irmão explorava os irmãos e a própria mãe, fazendo-os trabalhar no sítio, em troca de pouco dinheiro.
Casou-se com um homem que já considerava “não ser muito normal”,vindo de uma família na qual “todos têm problema”. Um homem que ela sabia de antemão que lhe daria muito trabalho, já que, enquanto ele morava com sua mãe, esta não o deixava fazer nada, em casa. Na verdade, o marido seria mais um filho para ela cuidar, que não ajudaria com as crianças, nem mesmo sabia fazer as próprias coisas, sozinho. Mas, acabou casando, “já que não tinha outro!”. Aliás, não é por esse probleminha dele que ela não casaria, visto que “há muitos problemas piores que esse”.
Após casar, a mãe de F. já se considerava velha e quis logo engravidar, apesar de temer que o filho pudesse vir a ter problema, como o pai e a família dele. Teve uma gravidez conturbada, visto que a mãe do marido não a aceitava, pelo fato de ser negra e de não ter sido escolhida por ela – a sogra – para se casar com seu filho. Consequentemente, a avó não aceitava o neto que ia nascer.
O dia do nascimento de F. também não foi muito calmo. Os médicos queriam fazer parto normal, porém, como a criança estava sentada, tiveram que fazer cesárea. A mãe precisou esperar dez horas, até que decidissem. 
Quando F. era pequeno, conforme sua mãe, esta não brincava muito nem conversava com ele, por imaginar que ele não entendia. Segundo ela, apesar de ter tido filho já velha – aos 34 anos -, não sabia cuidar de uma criança. Conta um episódio em que, enquanto ela lavava louça, a irmã dela viu F. se mexendo no carrinho, querendo conversar com ela – de acordo com a irmã. Contudo, ela não conversava, pois – reiterava –, achava que ele não entendia. Disse que agora, com o segundo filho, já sabe como ser mãe.
Ao que me parece, esse garoto, ao nascer, já denunciava algo dessa mulher que a irritava muito. Talvez esse casamento, esse marido que não faz nada e que vem de uma família problemática, sua origem (negra), ou algo que só através de uma análise ela poderia saber.
Sendo assim, a mãe já previa que ele seria uma criança problemática, como o pai. Algo que a impediu de fazer a função materna. E, o pai, ao que me parece, também não teve recursos para assumir essa criança como filho.
Além disso, o pai de F. não estava igualmente muito interessado em ter um filho, na época em que F. nasceu; em verdade, preferia que fosse uma menina – seu grande sonho. Em acréscimo, deve-se salientar que o pai de F. trabalha à noite e dorme durante o dia, de maneira que não tem muito contato, nem uma boa relação com F., não brinca e não conversa muito. Não sabe sobre os tratamentos que F. tem feito, nem como ele se comporta na escola.
Logo depois de F. nascer, a mãe dele engravidou – na tentativa de ter uma menina –, mas perdeu os bebês por quatro vezes consecutivas (na primeira delas, F. tinha 6 meses), até que nasceu J.
Para Jerusalinsky (2006), um bebê, quando nasce, não tem condições de sobreviver sem a ajuda de um Outro. É a mãe (ou um cuidador) que precisa fazer uma ação específica para esse bebê, já que este não consegue realizá-la, pelas suas limitações motoras e porque não tem um saber previamente inscrito (instinto). Essa ação específica, diante do choro do bebê, produz a experiência da satisfação, cujo efeito não é somente a realização da necessidade orgânica, mas também o registro psíquico de que, um dia, atingiu uma satisfação completa. No primeiro mês, a mãe está ali para o bebê, a todo o momento, satisfazendo-o, ou seja, atendendo prontamente a seus clamores, enunciados pelo choro, provendo o alimento/afeto. No entanto, aos poucos, a distância entre presença e ausência da satisfação desses incômodos que o bebê sente tende a se acentuar. Assim, a criança precisa se submeter a esse Outro, para que esse Outro a satisfaça.
A partir da linguagem, da fala dessa mãe, dos significados que essa mãe dá ao que o bebê está sentindo, da interpretação de suas necessidades, da sua alimentação e proteção, é que a mãe, então, nomeia essas ações involuntárias do bebê, supondo aí um sujeito.
Segundo a mãe, F. era “meio parado” até os dois anos de idade, além de ser um pouco gago – como o pai. Aos três anos, foi para a creche, onde perceberam que ele tinha problema, era hiperativo. Na pré-escola, a professora notou que ele não aprendia, encaminhando-o para uma instituição escolar para crianças especiais, quando F. tinha sete anos. Lá ficou por três anos e começou a tomar Tegretol, que supostamente curaria a criança. Estudava, durante o período de atendimento, em uma sala especial de uma escola municipal.
A mãe de F. dizia não aguentar mais, sentia como se ele fosse um peso na vida dela – e ele de fato é, imaginando-se que o menino remete a algo que a deixa muito irritada. E, junto com esse peso, vem a culpa por não ter sido boa mãe, por não ter cuidado direito, por não ter percebido, antes, que ele tinha algum problema. A mãe ressalta que F. é uma cruz, que ela tem que carregar. Ele a irrita e não se porta do jeito com que ela gostaria que ele agisse. Para ela, desde o seu nascimento, F. ocupa o lugar de uma criança-problema, de incapacidade, visto que ele teria um problema hereditário – segundo a fantasmática materna que antecipava a frustração.
Na verdade, antes de nascer, uma criança já é pensada pelos seus pais e colocada em determinado lugar, nessa família. Assim, já há uma expectativa de como a criança vai ser, fisicamente, do que vai gostar e sobre o que vai ser, quando crescer. Segundo Manonni (1964/1998), o nascimento de criança significa, para a mãe, a recompensa daquilo que ela desejou, durante a gravidez, ou a repetição de sua própria infância. Essa criança supostamente vai preencher a falta da mãe e ficar no lugar de um objeto que a completa.
Todo esse ideal é fundamental, a fim de que a criança seja objeto de desejo desses pais e se funde como sujeito. Todavia, é preciso que ela saia desse lugar de objeto, para poder crescer. Dessa maneira, a criança só pode sair desse lugar alienante, se houver a intervenção de um terceiro, no desejo materno. O pai precisa intervir na relação da mãe com a criança, de modo que interdite a criança de ocupar o lugar de objeto de desejo da mãe, colocando-a – a mãe – também em relação ao seu desejo. Esse pai serve como representante da lei, dando à criança o lugar de filho e de sujeito desejante.
Ao escutar a história de F., contada pela mãe, constatamos que não houve esse desejo inicial de ter um filho, nem por parte da mãe, nem pelo pai. Ao invés disso, F. foi tratado como um objeto a ser cuidado pela mãe, que não era visto como algo que a completava, mas algo a incomodá-la, um filho que, de antemão, já se sabia que teria problemas e que constituiria um peso na sua vida.
Acerca desse assunto, Bauer (1998) enfatiza que um filho deficiente precisa muito de sua mãe, podendo ficar em uma relação psicótica com ela. Esse filho serve como depositário de sentimentos hostis dessa mãe, que ela mesma não suporta reconhecer em si, mas vê na criança. Assim, mãe e filho ficam colados subjetivamente, em decorrência de uma fantasmática de cuidado, de que a criança com deficiência necessita.
Em sua primeira avaliação, F. falou pouco. Ficava parado e olhando para mim e para fonoaudióloga, “de cima para baixo” repetidas vezes. Não escolheu brinquedos, tivemos que fazer sugestões. Em uma folha de papel, não desenhou, somente escreveu seu nome, o nome da fono e o meu. Falou algumas palavras durante o jogo com a bola e gostou muito da brincadeira.
No decorrer das sessões de avaliação, eu percebia que F. não conseguia se expressar. Algumas vezes, apenas balançava a cabeça, para dizer sim ou não, e fazia sinal de “joia” com o dedo. Através de recortes de revista e colagens, ele soube identificar coisas de que ele gostava. Entre estas, havia comida, filme, criança. Reconheceu também personagens de um desenho animado.
A mãe trouxe um jogo de memória, em uma das sessões. F. me dizia: “Você tem que aprender”, diversas vezes – demonstrando uma repetição do que ele ouvia em casa. Isso era falado de maneira descontextualizada, pois eu estava ganhando o jogo. Nessa sessão, a mãe frisou que não costuma brincar com os filhos, que não conhece muitas brincadeiras.
F. começou o atendimento e, paralelamente, foi oferecida uma escuta para a mãe e para o pai.
Durante os atendimentos, verificamos que F. não sabia brincar de esconde-esconde; não sabia fazer-de-conta, em uma brincadeira; sabia ler, mas não entendia o que tinha lido.
Em uma das sessões, F. me confessou que não tinha jeito, que não ia mesmo melhorar; que, ao invés de melhorar, ele estava piorando. Pedia para eu deixá-lo, que somente o remédio é que ia fazê-lo melhorar – uma fala repetindo a da mãe, que dizia isso para mim na frente dele.
Recebi também uma carta da professora, em que esta relatava que ele não estava conseguindo diferenciar realidade de imaginação. Um exemplo acontecia na brincadeira de polícia e ladrão, na qual F. tinha dificuldade de se fingir de morto. Posteriormente, F. me explicou que, quando alguém atira (polícia), a pessoa (ladrão) desmaia, vai para o hospital e morre. Ou seja, F. não consegue metaforizar ou entender os diferentes significados de uma mesma palavra.
Como parte do tratamento, estivemos ainda na escola de F., para  conversar com sua professora e com a coordenadora da escola. Estas salientaram que ele já havia chegado a seu limite cognitivo. Além disso, consideravam que atrapalhava os colegas em sala e, durante o recreio, se isolava.
Jerusalinsk (1989) assevera que a construção do conhecimento se dá na relação mediada pelo Outro. Com psicogenética, sabe-se que o conhecimento não se constitui simplesmente pela repetição de saberes, mas é algo que vai sendo construído. Assim, a criança não é um sujeito passivo frente ao adulto, contudo, através de seus questionamentos e formulações de hipóteses, ela vai construindo um saber acerca do mundo. Quando isso não ocorre, o acesso ao conhecimento é comprometido, ficando a competência intelectual do sujeito em um funcionamento ignorante, com dificuldades de aprendizagem, isto é, o aparelho cognitivo da criança pode-se obturar, a partir dos efeitos que marcam o simbólico.
Depois de iniciado um trabalho com F., ele começou a pedir algumas coisas; todavia, a mãe não sustentou essa tentativa do filho de querer algo que vai além do que ela quer ou do que ela gosta. Exemplo: o dia em que ele pediu o DVD da Mônica. Decorre dessa circunstância a grande importância de se ter um espaço de escuta para essa mãe, para que ela possa garantir essas mudanças do filho. Nessa situação, ela preferiu comprar outro DVD, alegando que ela e J. o preferiam.
Em relação aos hábitos cotidianos, como amarrar o cadarço, pentear os cabelos, passar manteiga no pão, a mãe revelava que ele não conseguia e que ela não tinha paciência para ensiná-lo.
Ficamos várias sessões, tentando amarrar o cadarço. F. dizia que iria chorar, pois não sabia fazer aquilo. Às vezes, lembrava-se de todos os passos, mas, na hora de finalizar, alegava não saber. E, mesmo depois que já tinha aprendido e amarrado o cadarço, continuava a dizer que não sabia, irritando-se e ameaçando me bater e não vir mais à instituição. No decorrer dos atendimentos, F. fez alguns pedidos: fazer mingau, cachorro-quente, pipoca, bolo. A cada dia em que realizávamos essas atividades de culinária, ele ficava muito feliz, por estar aprendendo, por poder saber fazer essas coisas. Esses trabalhos também foram muito difíceis, no começo. Não por F., que aprendeu muito rápido, mas pela mãe entender que ele conseguia. Quando fizemos o bolo, ela disse: “Mas como você vai aprender a fazer bolo, nem eu sei...” – mostrando que apenas ela é que podia saber. Pois fizemos um bolo maravilhoso e, a partir desse dia, ela pôde começar a ver alguma possibilidade no filho, deixando-o realizar algumas dessas atividades também em casa.
Com onze anos de idade, F. apresentava um grande atraso no desenvolvimento, fazendo entrever que várias marcas deixaram de ser feitas, em idades anteriores. A consequência é que F. não consegue se expressar ou exprimir sentimentos; fala tudo o que lhe vem à cabeça, sem um contexto, sem relação com o que estava falando antes, ou seja, sem uma organização do seu pensamento. Repete frases que ouviu da mãe, como: ”Eu estou muito nervosa hoje” ou ”Eu fiz arte hoje”. Pergunta-me sobre como é estar triste, como é estar feliz. Presta muita atenção às minhas expressões e tenta, com base nelas, caracterizar como eu estou; por exemplo, se enrugo a testa, ele acha que eu estou brava.
Um dia, a mãe reclamou do psiquiatra do filho. Disse que ele nem olha para F. e só passa receita. Afirma que o filho anda muito agitado em casa e que ela acredita que é necessário aumentar a dose de seu remédio.
F., então, foi encaminhado ao neurologista da instituição em que eu o atendia. Na primeira consulta, a mãe não o levou, pois disse que esse médico era neurologista e o caso do filho dela era para psiquiatra, visto que os neurologistas não passam remédio – em verdade, ela já havia levado o filho a um neurologista e este, após realizar o exame, havia dito que o filho não tinha problema neurológico.
A consulta foi remarcada e a mãe contou-me sobre o atendimento. Segundo ela, o médico concluiu que F. tem um atraso no desenvolvimento e que não precisaria tomar remédio, já que realmente não tem problemas neurológicos. Ele iria melhorar com os atendimentos que recebia na instituição – atendimento psicológico, psicopedagógico e de grupo de contação de histórias.
De acordo com Manonni (1964/1998, p. 2), a mãe que tem um filho deficiente vai viver contra os médicos, porém sempre procurando sua ajuda. No entanto, “o que será que ela quer? A cura do filho? Um diagnóstico? A verdade em relação ao problema do seu filho?”
“Nada no que diz respeito ao seu filho, um pouco no que diz respeito a ela”, assinala a autora referida.
A mãe não acredita que se filho possa ser curado. Várias vezes, já foram dados diagnósticos por especialistas diferentes, a respeito de seu filho. E a verdade? É só a mãe que sabe. O que ela deseja é que sua pergunta não tenha resposta, a fim de que ela possa continuar a se questionar. Desse modo, ela precisa de alguém que a escute e perceba que, por trás daquela máscara de fortaleza, existe uma mulher que sofre e que não aguenta mais.
Percebi isso, quando a mãe de F. relatou sua ida ao médico. “Sem medicamento, ele fica agitado demais”, afirmou. Decorrência: levou-o ao antigo psiquiatra e pediu para que fosse dobrada a dose de Tegretol. Percebo que, para ela, é mais fácil crer que o problema vai ser solucionado com o remédio do que se implicar nesse tratamento. Tanto que ela concordou com a idéia – proposta por outra instituição - de levá-lo ao Centro de Atenção Psicossocial, visto que lá “tem remédio de graça” e também “psiquiatra”. Felizmente, não levou essa possibilidade adiante.
Além disso, F. entrou na puberdade e não sabia lidar com a sexualidade e com as mudanças de seu corpo, próprias desse período. Na escola, F. começou a se masturbar; falar que amava as meninas; tentar beijá-las; dizer que queria se casar com elas. Em casa, segundo a mãe, F. demora no banheiro, acorda durante a noite para “fazer xixi”, “fica mexendo” no órgão genital. Na instituição, F. queria me beijar, me abraçar, dizendo que me amava e queria se casar comigo. No grupo de crianças, essas atitudes também ocorriam em relação a outras garotas. Diante do não, ele perguntava: por que não pode? Porque não pode beijar? Porque não pode “mexer no pipi”?
F. colocava em ato aquilo que não conseguia organizar no pensamento ou expressar através da fala. Contudo, essas são outras questões, as quais trabalhei no ano seguinte a este relato e que, por conseguinte, não abordarei neste trabalho.

Conclusão
F. ainda continuou por mais um tempo, até os doze anos, sendo atendido pela instituição. Assim, pude verificar, ao longo dos atendimentos, os efeitos do trabalho. Na referida instituição, ele tinha um lugar diferente do que lhe é dado em sua casa, como ele mesmo relata em quase todas as sessões: “Aqui é diferente”. Ele podia se expressar, podia pedir, podia aprender, o que o deixava feliz e o retirava desse lugar de objeto, que ele tinha em casa.
Além disso, segundo o relato da mãe, F. tem tentado uma maior independência com relação aos cuidados dela. Exemplo: F. quer ir sozinho para a escola. “Ele vai na frente e eu tenho que correr atrás, mas ainda tenho medo de deixar ele ir sozinho, porque ele não sabe atravessar a rua sozinho, mas eu estou ensinando para ele”.
Quanto à mãe, começou a perceber que precisava de uma escuta individual, de sorte que a solicitou para a psicóloga responsável pelo grupo de mães. Alguma questão a tem incomodado em relação a F. e à irritação que sente. Por outro lado, seu outro filho, J., também iniciou atendimento na instituição, o que provavelmente tem provocado alguns questionamentos sobre a sua função de mãe e a forma como educa essas crianças.
A mãe igualmente deixou parte do cuidado dos filhos para o pai, que os trouxe muitas vezes à instituição. Assim, ela pôde ficar “um pouco sozinha”. E acrescento: dessa maneira, ela o convoca e ele pode ser pai dessas crianças.

Referências bibliográficas
BUAUER, J. O sujeito e a deficiência. Estilos da Clínica, São Paulo, III (S), 56-62, 1998.
JERUSALINSK, A e col. Psicanálise e desenvolvimento infantil. Um enfoque transdisciplinar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
MANNONI, M. A criança retardada e a sua mãe. São Paulo: Martins Fontes, 1964/1985.
JERUSALINSKY, A. Mente Cérebro: Operações simbólicas. Primeiros desafios. São Paulo, v. 1, n.1, p. 60-65, 2006.

Publicado em 24/02/2010


Ariane de Oliveira Camargo - Psicóloga; especialista em psicanálise; mestranda pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras de Assis.

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