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A SEXUALIDADE NA ESCOLA E NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

Franciele Roos da Silva Ilha e Hugo Norberto Krug

RESUMO
Não é nenhuma novidade que as questões que se referem a sexualidade vem sendo extremamente exploradas em nossa sociedade, porém, de maneira superficial, equivocada e direcionada a uma área específica do conhecimento. Sabendo que a escola tem uma função social e educativa junto à sociedade, ela possui um papel fundamental na orientação de propostas de orientação e educação sexual. Desta forma, este ensaio teve como objetivo abordar o tema sexualidade na escola e na Educação Física escolar, no intuito de criar subsídios para que os professores possam fazer uma reflexão sobre este tema e melhor encaminhar as práticas educativas. A abordagem utilizada foi à qualitativa, caracterizando-se ainda, como uma pesquisa bibliográfica. Podemos perceber que, na escola, falar sobre sexualidade parece se restringir ao conhecimento do aparelho reprodutor e a prevenção de doenças e gravidez, onde o aluno nem sempre é percebido como pertencente a um determinado contexto social. Talvez tratar a sexualidade atrelada somente ao biológico possa ser uma forma de se proteger, exatamente, dos perigos que uma sexualidade “prazerosa” possa causar. Enfim, os professores ao sentirem-se despreparados para tratar deste assunto acabam tentando controlar estas manifestações sexuais como forma de diminuir o mal-estar e o perigo que a sexualidade, para eles, possa causar. A partir disto, podemos ressaltar a importância, de existir um trabalho dirigido à preparação dos professores para atuarem dentro da área de orientação sexual.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS 
Atualmente vivemos um momento em que as crianças e adolescentes tem amplo acesso à informação. A mídia através da propaganda, novelas, filmes, revistas e programas de televisão, inclusive aqueles dirigidos ao público infantil, tem explorado constantemente cenas erotizadas, transmitindo informações equivocadas sobre questões sexuais.
Assim, os pais e também os educadores, ficam sem saber ao certo como trabalhar a questão sexual. Muitos recorrem a explicações mágicas e fantasiosas na tentativa de preservar a inocência infantil ou até mesmo de fugir de tais questionamentos, confundindo ainda mais a criança.
No entanto, acreditamos que a informação, desde que bem conduzida, jamais será prejudicial, pois conhecer a realidade é menos problemático do que não saber os fatos e viver na dúvida.
Por tudo isso, surgem questionamentos desafiadores na escola, tais como: como ajudar para que as crianças e adolescentes tenham a informação adequada sobre sexualidade?
É um desafio, com que o professor se depara na pós-modernidade. Pergunta que desinquieta e que cabe ao professor responder sem rodeio, de uma maneira simples, clara, sem conotações de censura ou preconceito.
Com a liberação sexual, todos os preconceitos, medos e tabus são amenizados e cada vez mais se fala em sexo. A igreja não consegue mais controlar a curiosidade que se tem sobre a sexualidade, curiosidade esta incentivada pelo capitalismo que coloca o sexo como produto de consumo exposto em prateleiras (SCHMIDT, 2002).
Ribeiro (1990) diz que é uma época em que a sexualidade é incentivada a ser vista de diferentes formas: da moral, até então repressora, passaríamos para a conduta que se diz liberal e permissiva. Com a mídia, o sexo é visto de uma maneira de fácil alcance, onde não existem bloqueios, culpas ou rejeições. Mas alerta que a sociedade está esquecendo que a sexualidade existe para preencher a necessidade humana básica de dar e receber prazer, passando a existir um relacionamento mais íntimo e significativo com alguém.
Por fim, acaba existindo uma exigência de que as pessoas se adaptem a uma sociedade que possui diversas normas, valores, crenças, costumes, que expressam diferentes padrões de comportamento sexual. A escola é um espaço onde, em todo o momento, aparecem estas diferenças culturais, logo, encontram-se também tensões, contradições e conflitos, principalmente no que se refere à sexualidade de seus alunos e professores (SCHMIDT, 2002).
Assim, considerando estas premissas descritas, este ensaio teve como objetivo abordar o tema sexualidade na escola e na Educação Física escolar, no intuito de criar subsídios para que os professores possam fazer uma reflexão sobre este tema e melhor encaminhar as práticas educativas.

METODOLOGIA
A abordagem utilizada foi à qualitativa, sendo que, de acordo com Demo (2005, p.146), “Fenômenos qualitativos caracterizam-se por marcas como profundidade, plenitude, realização”. Além disso, caracteriza-se como bibliográfica, de modo que, para a coleta de informações utilizou-se um referencial teórico elaborado, a partir dos conceitos e posicionamentos emitidos pelos autores que abordam a temática proposta. Segundo Carvalho (1987, p.110): “A pesquisa bibliográfica é a atividade de localização e consulta de fontes diversas de informações escritas, para coletar dados gerais e específicos a respeito de determinado tema”.

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES
O que é sexualidade?
Segundo Queiroz (2000) o conceito de sexualidade data do início do século XX, especialmente a partir da obra de Freud. Até então as crianças eram consideradas como seres “puros”, “inocentes”, e qualquer manifestação da sexualidade infantil era considerado como algo “feio”, “sujo”, “imoral”.
Já conforme Figueiró (1996, p.59):

As tentativas de conceituação demonstram, em um número significativo de textos, que não há uma posição teórica clara e objetiva quanto ao conceito de educação sexual. Além disso, diferenças, incoerências e/ou confusões foram ainda encontradas, em alguns textos, nas tentativas de classificação dos tipos de educação sexual.

Para Schmidt (2002) podemos perceber que a sexualidade ainda é um terreno muitas vezes desconhecido e tortuoso de ser percorrido, seja no que tange às questões de como a educação sexual vem sendo tratada no decorrer dos anos da escola, através das tentativas de sua inserção na prática, seja quanto aos fundamentos teóricos que constam nos currículos ou nos materiais que se propõem a fundamentar de forma científica e teórica este tema.
A sexualidade infantil
De acordo com Britzman (apud CRAIDY; RAERCHER, 2001) o paradigma da sexualidade como gerador de discussões em torno da construção de uma metodologia voltada à educação sexual desde a infância, baseia-se nas idéias de que o sexo é um assunto pertinente em nossas vidas mesmo a partir da mais tenra idade.

A sexualidade está presente e faz parte de nossa vida, podendo ser vista como a base da curiosidade, a força que nos permite elaborar e ter idéias, bem como o desejo de ser amado e valorizado à medida que aprendemos a amar e valorizar o outro (p.62).

Assim, podemos avaliar que o momento atual da sexualidade como sendo a hora exata em que confluem idéias, por vezes opostas sobre o sexo na infância, de um lado a problemática do assunto exposto de forma insistentemente nos meios de comunicações, por outro lado, a educação sexual é um tema nos debates educacionais.
Entretanto, segundo Britzman (apud CRAIDY; RAERCHER, 2001), apesar de toda a informação disponível à criança de hoje, muitos se negam a discutir como ela questões ligadas a sexo e sexualidade, com receio de que isto vá despertar um comportamento precoce. Muitas vezes, na tentativa de preservar a “inocência infantil”, os pais e os professores recorrem a explicações mágicas para esclarecer questões ligadas a sexualidade, confundindo ainda mais a criança. No entanto, a criança elabora suas próprias teorias a respeito da sexualidade sem a autorização dos adultos e apesar dos empecilhos colocados.
Para Lobos (1995) os estágios pelo qual a criança passa nesta caminhada pela sexualidade deve ser considerada, na necessária transmissão de informações que venham a desvendar nas curiosidades e trazer respostas à medida que se interessam por determinados aspectos desse assunto de forma mais rápida possível, de imaginário e do sentimento infantil, para o qual a libido presta-se muito bem, guiando os pequenos para o (re)conhecimento de seu ambiente, dos outros e de si mesmo.

Ainda Lobos (1995) descreve a descoberta do sexo da seguinte maneira:
a) 4 anos
É o começo da fase do reconhecimento sexual. É neste momento que a criança descobre que as pessoas são diferentes e, ao tocar os órgãos sexuais do amigo da mesma idade, estará apenas satisfazendo sua curiosidade, sem malícia. Mas não é o que pensa a família. O instinto dos professores ao flagrar o aluno numa situação de intimidade com outra criança é pensar em sexo de forma como o adulto conhece.
Lidar com situações embaraçosas desta fase é uma provação para os professores, que em qualquer caso, não deve reprimir os alunos, pois se arriscam a passar uma imagem negativa sobre o sexo.
As perguntas a respeito do assunto são igualmente embaraçosas, mas precisam ser respondidas com franqueza e naturalidade. A resposta deve ser simples, porque a criança não está pronta a entender explicações complexas. Nada melhor do que uma boa conversa para demonstrar idéias descabidas.
b) 5 anos
Nesta idade, a criança preocupa-se mais em saber como surgem os bebês, com maior interesse de como o bebê cresce na barriga da mãe. Com 5 anos, é muito difícil ver a criança exibindo as nádegas ou partes genitais, tornando-se bastante recatadas. Diferenciam-se meninas e meninos mais pelos nomes, cortes de cabelo, roupas ou brinquedos.
c) 6 anos
A criança se interessa pelo casamento, origem dos bebês, gravidez, o nascimento, o sexo oposto, o papel do sexo, maior interesse por bebê na família, mesmo que haja um. A criança de seis anos deseja que a mãe tenha um filho.
d) 7 anos
Aos sete anos de idade a criança faz brincadeiras relacionadas com o sexo, mas evita exibir seus órgãos genitais ao ir ao banheiro ou tirando as roupas. Nesta idade a criança se torna mais pensativa em relação ao sexo, estabelecendo planos para a mãe ter bebês e sabem que as mulheres mais velhas não podem ter mais bebês. É nesta fase que se iniciam os rudimentares namoricos.
e) 8 anos
Gostam de fazer perguntas antes de dormir e gostam de dormir com luz apagada. Crianças de oito anos estão interessadas nas relações entre meninos e meninas. O romantismo começa a florescer. Meninos reconhecem meninas bonitas e elas correm atrás dos simpáticos. As meninas são mais sensíveis, carecem mais vigilância, pois elas participam quase sempre de grupos de crianças mais velhas.
f) 9 anos
As crianças de nove anos manifestam menor interesse pelas questões relativas a reprodução. Algumas crianças pensam que os bebês nascem somente de cesariano, mas uma boa parte delas, por conta dos animais que conhece, aceitam com naturalidade o processo de nascimento. É neste estágio que o emprego dos palavrões começa a se desviar para a visão sexual. Nesta etapa é bem acentuada a separação entre meninos e meninas nas suas brincadeiras.
g) 10 anos
A criança desenvolve os prazeres da vida e do mundo e também de regras para viver com a turma. E uma das primeiras regras que ela aprende é que meninas brincam com meninas e meninos com meninos. Surge então a divisão inevitável. Cada sexo refugia-se ente seus pares em busca de uma identidade para assumir seu lugar na sociedade. Esta identidade é afirmada pela oposição ao outro sexo, dando origem a uma rivalidade que se manifesta por provocações, rixas e intrigas.
h) 11 e 12 anos incompletos
Eles não são crianças, nem adolescentes. Na verdade, estão no meio do caminho. As meninas despontam os seios, surgem curvas insinuantes. Nos meninos aparecem pêlos, a voz se altera. Estão distantes da naturalidade, mas os pré-adolescentes despertam para o sexo e vivem uma fase de devaneios românticos e sonhos inocentes e eróticos.
Os pré-adolescentes experimentam então uma corrente de sensações novas. Nunca se sentiram tão interessados na iniciação sexual. É na puberdade que existe uma certa tendência de viver uma situação permanente de tudo ou nada, pois o adolescente perde a cômoda neutralidade da infância e a naturalidade adulta ainda está longe.

A sexualidade do adolescente
Segundo Magalhães (2001) na adolescência o amor é mais tênue altruísta que nas fases anteriores. Inclui paixões intensas e rejeições igualmente intensas. Assim, o problema do adolescente é o de conciliação entre um conjunto de exigências culturais em relação a ele e os padrões de ajustamento de relações interpessoais que surgiram na família anteriormente.
Millot (1999) lembra Freud que já advertia que a sexualidade deve ser tratada no mesmo plano que as outras matérias, de maneira que a criança não tenha o sentimento de que se dá em um lugar diferente a essas questões. Mas é preferível que seja a escola a assumir a tarefa de ensinar educação sexual, e isso se deve em grande parte, à imperícia que os pais geralmente demonstram na formação sexual de seus filhos.
Os adolescentes descobrem a sexualidade, e as diferenças em controlar os seus impulsos sexuais, em muitos casos acabam levando-os à prática da masturbação e às primeiras experiências de relações sexuais.
Se a criança ultrapassa razoavelmente as diferentes fases do desenvolvimento – e isto supõe uma boa base afetiva e bons modelos familiares – deverá trafegar na adolescência sem grandes tumultos.
Para Souza (1987) a sexualidade desempenha um papel importante na determinação da auto-estima dos adolescentes.
A partir da adolescência, fica difícil ignorar os desejos sexuais, que aparecem, a um só tempo, estranhos e atraentes. Não bastando a confusão hormonal, alguns adolescentes são perturbados por dúvidas angustiantes sobre a sexualidade.
Para superá-los, nada melhor que o diálogo franco e aberto sobre os termos para que o adolescente possa compreender a sua sexualidade conscientemente, sem “grilos”.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais e a sexualidade
Segundo Schmidt (2002) os PCNs foram construídos sob uma “base nacional comum”, suas recomendações tem como intenção a promoção da diversidade do sistema de ensino de acordo com as diferenças regionais, sociais, culturais e econômicas, na qual o estabelecimento escolar esteja inserido. Assim, para promover tal qualidade educativa, os PCNs propõem objetivos, conteúdos essenciais, critérios de avaliação e orientação didática.
Para que haja uma educação voltada à cidadania, é importante que questões sociais possam fazer parte do meio escolar. Por isso a necessidade de existir um espaço para agregar tais questões. Este espaço é chamado de eixos transversais. Estes referem-se a um conjunto de temas que deve se inserir no currículo escolar com a mesma importância referida a disciplinas já existentes. Tais temas propostos pelos PCNs seriam relacionados à Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Saúde, Orientação Sexual, Trabalho e Consumo (SCHMIDT, 2002).

Por serem questões sociais, os temas transversais tem natureza diferente das áreas convencionais. Tratam de processo que estão sendo intensamente vividos pela sociedade, pelas comunidades, pelas famílias, pelos alunos e educadores em seu cotidiano. São debatidos em diferentes espaços sociais, em busca de soluções e alternativas, confrontando posicionamentos diversos [...] já questões urgentes que interrogam sobre a vida humana, sobre a realidade que está sendo construída e que demandam transformações macro-sociais e também de atitudes pessoais, exigindo, portanto, ensino e aprendizagem de conteúdos relativos a essas dimensões (BRASIL/PCNS, 1999, p.26).

De acordo com Schmidt (2002) os PCNs não dividem estes assuntos por área ou disciplinas, pelo contrário, espera que estes possam estar integrados em todas as áreas convencionais.

[...] não trata de que os professores de diferentes áreas devam ‘parar’ sua programação para trabalhar os temas, mas sim de que explicitem as relações entre ambos e as incluam como conteúdos de sua área, articulando a finalidade do estudo escolar com as questões sociais, possibilitando aos alunos o uso dos conhecimentos escolares em sua vida extra-escolar (BRASIL/PCNS, 1999, p.27).

Dentro dos temas transversais existe aquele que fala sobre a orientação da sexualidade no meio escolar. Neste documento, a sexualidade é compreendida como:

[...] inerente à vida e a saúde, que se expressa no ser humano, do nascimento à morte. Relaciona-se com o direito do prazer e ao exercício da sexualidade com responsabilidade. Englobar as relações de gênero, o respeito a si mesmo e ao outro e à diversidade de crenças, valores e expressões culturais existentes numa sociedade democrática e pluralista [...] (BRASIL/PCNS, 1999, p.287).
 
Sua inserção no meio escolar aumentou no momento em que educadores passaram a preocupar-se com o grande crescimento da incidência da gravidez indesejada entre adolescentes e o surgimento do risco de contágio pelo vírus HIV entre jovens (SCHMIDT, 2002).
Os PCNs esperam que o assunto da sexualidade possa ser não somente com os professores de biologia, que muitas vezes limitam as informações sobre a reprodução, anatomia e fisiologia do corpo humano. Mas sim que todos profissionais possam abarcar as ansiedades e curiosidades referentes à sexualidade. Este assunto deve ser tratado de forma clara, simples e direta (SCHMIDT, 2002).
A sexualidade é algo que aflora de forma muito rápida em adolescentes. Esta explosão assusta, muitas vezes, percebe-se que é impossível virar as costas para este assunto, já que a sexualidade não é algo que possa ser deixado pelo lado de fora dos muros da escola (SCHMIDT, 2002).

As manifestações da sexualidade no meio escolar
Pinto (1987) diz que a escola aparece muitas vezes exatamente como o espaço da não-sexualidade. Nela vigoraria, explícita ou implicitamente, a interdição quanto a qualquer manifestação da sexualidade, e que, por vezes, dela emana recomendações tendentes ao adiamento de seu exercício. Porém, apesar de suas finalidades, a escola continua sendo um bom lugar onde as crianças e os jovens possam ter um espaço para debater, trocar idéias e serem esclarecidos quanto à sua sexualidade. Muitas escolas trabalham para que isso aconteça, mas não sabemos até que ponto o caminho trilhado não se limita apenas ao caráter informativo.

[...] a escola é o espaço também de crítica sobre a sexualidade estabelecida e o laboratório das novas significações e vivências. Não de uma maneira superficial como vem sendo feita, empirista, biologista, informativa e outra vez diretiva (NUNES, 1987, p.17).

As escolas não deveriam limitar-se a um amontoado de informações de biologia, já que isso se mostra insuficiente para dar conta da amplitude das questões sexuais (SCHMIDT, 2002).

A escola tem como parte ativa no processo de educação para a sexualidade no momento em que deve organizar as informações, corrigi-las, enriquecê-las, questioná-las e abrir espaço para a discussão, para a pluralidade de idéias e de modelos (CHAGAS, 1998, p.14).

Assim, segundo Schmidt (2002), poder-se-ia ter a chance de sistematizar algum trabalho sobre sexualidade frente àquilo que muitas vezes o aluno já trás de casa.
Desde que nascemos, já recebemos uma educação informal. São os pais, em primeira instância, que nos ensinam como agir em determinadas situações na sociedade em que estamos. Todos somos submetidos a este processo contínuo, a partir dele, criaremos nossos hábitos, opiniões e pensamentos (SCHMIDT, 2002).
A educação sexual encontra-se dentro de um processo cultural que vem de muito tempo, e que de sua forma direcionará o indivíduo para diferentes atitudes e comportamento ligados à manifestação de sua sexualidade. Isso acontece o tempo todo, dentro ou fora de casa, através da família ou dos amigos, pelos jornais ou televisão (SCHMIDT, 2002).

É a própria evolução da sociedade que determina os padrões sexuais de cada época e, conseqüentemente a educação sexual que será levada ao indivíduo (RIBEIRO, 1990, p.9).

Já a orientação sexual é a educação sistemática daqueles indivíduos que vem com uma bagagem, transmitida informalmente, de valores e normas sobre a sexualidade. É o processo formalizado por uma instituição, que ocorre por um certo período de tempo e que é feito por profissionais que atuam na área (SCHMIDT, 2002).

[...] a orientação sexual é uma intervenção pedagógica e como tal deve favorecer a reflexão de temas que permitem liberdade de expressão num ambiente acolhedor, onde vínculos significativos possam originar efeitos muito mais expressivos de que a simples aquisição de informações (PINTO, 1998, p.55).

Suplicy (1993) aponta que a orientação sexual não somente pode preencher as lacunas de informações com que o jovem chega na escola, mas que, a partir disso, possa ser mexido nos preconceitos, tabus e conflitos, proporcionando aos adolescentes escolhas mais maduras, livres de vergonha e culpa, propiciando, assim, uma visão mais ampla sobre a sexualidade.
Os pais transmitem seus valores educacionais aos filhos. Cabe à escola ampliar estes conceitos, demonstrando a diversidade de valores que uma sociedade possui. Com isso, o aluno estará mais apto para refletir, discutir e opinar sobre tudo o que lhe foi mostrado, podendo, por fim, eleger seus próprios valores.
É importante que a escola mantenha-se em parceria com os pais. Deve-se compreender que cada família possui um sistema de valores próprios que já vem sendo transmitido por gerações. A escola deve suportar as angústias trazidas por estes pais ao falarem de seus filhos, desta forma, em sintonia, os esclarecimentos sobre a sexualidade podem ser vistos de forma mais tranqüila, sem abalar os alicerces familiares (Schmidt, 2002).
O papel do professor de Educação Física como educador e orientador sexual
O papel do professor de Educação Física, assim como dos demais professores, deve ir ao encontro de uma prática educativa que articule os conhecimentos específicos da sua área com outros temas tão importantes de serem discutidos e compreendidos, como o caso da sexualidade. Nesse sentido, um fator positivo para que ocorra esse diálogo nas aulas de Educação Física, refere-se a boa relação geralmente existente entre os professores de Educação Física e seus alunos, no sentido de que esses profissionais conseguem ter uma maior afinidade com os alunos do que os professores de outras disciplinas (SILVA,1992 apud BETTI; MIZUKAMI, 1997).
Além disso, na escola, ao mesmo tempo em que uma orientação sexual está ocorrendo, uma educação sexual também é, inevitavelmente, transmitida. Em sua organização, pela distribuição nas salas ou pelos professores que estão presentes, oferecendo-se como modelos humanos. Em tudo a escola estará influindo sobre o aluno, mesmo que oficialmente negue este processo (SCHMIDT, 2002).
Mello (2000) preocupa-se com o caráter repressor que os professores podem transmitir aos seus alunos as questões da sexualidade por uma falta de preparo para falar sobre este assunto. Muito mais do que pelas palavras, os atos podem reprimir ou liberar. Mesmo que o professor nunca fale sobre sexualidade ou que finja não perceber determinadas atitudes, ainda assim estará educando e influindo de alguma forma sobre seus alunos e alunas. Assim é que, segundo a autora, todas as percepções que se tenha sobre a sexualidade, independentes da forma como sejam externadas em sala de aula pelo professor, influenciarão na aquisição de comportamentos pelos estudantes.
Com isso, podemos pensar na importância da formação daqueles profissionais que se dedicam a esta área de orientação, bem como na sua capacidade de lidar com os conflitos, ansiedades e angústias inerentes à sexualidade.

O preparo do profissional envolvido, a definição e elaboração de metodologias envolventes, o conhecimento do grupo a ser trabalhado, a presença da família e a priorização dos assuntos de interesse dos alunos, são aspectos fundamentais para se pensar em uma orientação sexual consciente e compromissada (PINTO, 1998, p.59).

Quando um professor está em sala de aula, diante de seus alunos, representando uma função, um papel, encontra-se inteiro, como uma pessoa que entre outras coisas apresenta sua própria sexualidade estampada. É muito importante que este educador possa pensar neste espaço que representa para seus alunos, para assim, poder ajudá-los nas dúvidas e conflitos que surgirão (SCHMIDT, 2002).
O professor não deve dizer o que é certo ou o que é errado; ele deve ser um ouvinte que demonstre respeito pelo que o aluno pensa. Deve tentar também possibilitar ao aluno a crítica e o questionamento, manifestando uma postura sincera e não fingindo uma neutralidade impossível (FERNANDES, 1995).
Ribeiro (1990) destaca que, sobre a formação dos profissionais, devem eles debater suas dúvidas e angústias, refletir sobre valores e conflitos, questionar os tabus e preconceitos antes de chegarem a seus alunos. O orientador sexual deve, em primeiro lugar, acreditar na necessidade de levar para dentro de uma sala de aula os questionamentos sobre a sexualidade.
Quanto às características deste educador, o mesmo autor ressalta a necessidade de ser coerente, analisando com os alunos as diferentes visões que existem sobre o tema. Deve ter conhecimento sobre o assunto sem ser onipotente, e sensível para perceber as necessidades de seus alunos. O processo deve ser de troca, buscando guiar a desmistificação dos estereótipos sexuais e, por fim, criar um equilíbrio entre as posições radicais de extrema moralidade ou vulgaridade.

A tarefa de educador seria mostrar diferentes pontos de vista sobre as várias questões relativas ao sexo, ajudando os jovens a construir valores que orientem seu modo de vida e padrões por meio dos quais decidam sua conduta sexual. Construir um sistema de valores é especialmente difícil porque enquanto alguns deles são inquestionáveis, outros são bastante polêmicos. Princípios como liberdade e integridade pessoal, consideração pelos outros e igualdade entre homens e mulheres, por exemplo, devem ser enfatizados e constantemente lembrados (ROSEMBERG, 1985, p.17).

Normalmente atribui-se ao professor de biologia a função de orientador sexual. Porém, acreditamos que se o professor tem disponibilidade e desejo de realizar este trabalho, sua área específica pouco imposta. Contudo, devemos ressaltar que o investimento feito nos professores quanto à sua preparação para trabalhar na área de orientação sexual ainda aparece de maneira muito necessária. Uma pesquisa feita demonstra que o apoio que os professores de magistério recebem em sua formação para trabalhar a sexualidade é muito pequeno, e que o sentimento com que saem de seu curso é o de não saberem como lidar ou trabalhar com as questões da própria sexualidade, e, muito menos, com a sexualidade de seus alunos. O que a pesquisa por fim constata é que as escolas de magistério possuem uma expressiva preocupação com os conteúdos funcionais em detrimento dos conteúdos afetivos, desconsiderando assim, a educação para a sexualidade (CORREIA, 1994).

Estratégias didáticas para trabalhar a sexualidade
Yus (1998) cita estratégias didáticas para trabalhar a sexualidade na escola, são elas:
1) Trabalho cooperativo dos alunos – Motivar as crianças para que trabalhem em equipe, é um método que facilita a sua preparação para a projeção social. Cabe ao professor motivá-los a desenvolver a socialização. Por outro lado, a criança deve adquirir confiança em si mesmo e em sua capacidade de investigação, antes de envolver-se no trabalho coletivo;
2) Transformar conflitos sócio-cognitivos em temas afetivos – A criança não deve ser reprimida de seus impulsos espontâneos. O professor, como ser humano, deve ser sensível a esses sentimentos, transmitindo-lhes segurança para que o aluno encontre apoio;
3) Propor experiências que coloquem em contradição os estereótipos – A sociedade impõe uma série de exigências das quais as crianças acabam sendo envolvidas: o produtivismo, a competitividade e o consumismo. Os adultos passam “valores” consumistas, identificados com o êxito social, prejudicando seus filhos, pelo motivo de desejarem suas frustrações e crenças e ambições pessoais. Porém, é necessário que se reflita sobre as situações mais vividas de diferentes idades, bem como determinadas atividades, que os ajudarão a descobrir os estereótipos relacionados com a idade e sexo;
4) Adotar uma postura integradora da diversidade dos alunos – Trata-se de uma atenção específica e individual para cada um dos alunos da escola, para que cada um deles alcance seu nível ótimo de desenvolvimento e uma adequada integração social. Desse modo, cada criança solicita colaboração ao professor ou a outras crianças nos aspectos que necessita, e se sabe auxiliar reciprocamente as demais; e
5) Fomentar o trabalho – O trabalho simbólico através do jogo de papéis e o desenho é um dos recursos mais adequados para o ensino primário. Por meio do trabalho simbólico podem ser abordados determinados conflitos, angústias e situações da vida real que dificilmente poderiam ser tratados de forma direta transformando a realidade em símbolo, a criança a utiliza, manipula e modifica, apropriando-se dela.

Considerações finais
Na escola, falar sobre sexualidade parece se restringir no conhecimento do aparelho reprodutor e a prevenção de doenças e gravidez, onde o aluno nem sempre é percebido como pertencente a um determinado contexto social. Talvez tratar a sexualidade atrelada somente ao biológico possa ser uma forma de se proteger, exatamente, dos perigos que uma sexualidade “prazerosa” possa causar.
Existe um receio que ao falar de sexualidade fora dos moldes já conhecidos e esperados, o do biológico, possa despertar nos alunos algo da ordem do pulsional, desta energia fundamental a existência do sujeito e necessária a seu funcionamento, e que está alem da simples satisfação instintual.
Como forma de controlar estas manifestações sexuais os professores passam a adquirir um comportamento de vigilância constante sobre seus alunos e quem sabe punição se algo for realmente constatado. Assim, enquanto a sexualidade se manifesta dentro do esperado pelos professores ela passa a ser vista como positiva, a complicação surge exatamente no momento em que esta sexualidade extrapola estes limites esperados, e para trabalhar com isso poucos professores sentem-se preparados.
Ao se depararem com essa situação, que vai além dos conteúdos propostos no currículo, a sexualidade que se expressa através das ironias, brincadeiras e agressividades, o professor sente dificuldade em responder e o retorno que acaba oferecendo aos seus alunos se baseia a partir de suas percepções e valores pessoais.
O aluno coloca o professor em uma posição e dele espera uma resposta, por sentirem-se despreparados, os professores acreditam que uma pessoa externa ao ambiente escolar possa responder melhor a estes questionamentos, neste momento surge a figura do especialista, que é uma terceira pessoa que ocupa o lugar que até então era de professor. O que podemos ver é que mesmo com a presença de um especialista, parte neste lugar de maior saber, o professor acaba intermediando este contato, já que se torna a pessoa mais indicada para conversar com os alunos devido a sua proximidade e conseqüentemente maior conhecimento da história de cada um.
A escola acaba reforçando a insegurança dos professores em trabalhar a sexualidade com seus alunos no instante em que não propicia um espaço onde este preparo realmente se efetiva. Desta forma, se fortalecem as conversas que giram apenas sobre as questões biológicas e os métodos preventivos, deixando-se de lado as angústias, conflitos e desejos inerentes à sexualidade.
Além disso, os professores acreditam que para ocorrer um bom trabalho de orientação sexual a família deveria estar mais vinculada neste processo, porém, o que podemos ver é que a escola parece abrir este espaço para os pais somente para tratar daqueles casos já considerados problemas. Assim, por mais que a escola se esforce em ajudar no esclarecimento sexual de seus alunos ela jamais conseguirá abarcar esta função em sua integra. Primeiro, porque estamos nos referindo a sexualidade que é algo que foge as amarras de qualquer estrutura, e segundo, na parte prática, lhe escapará o suporte devido ao despreparo dos professores.
Enfim, podemos ver que a sexualidade manifestada fora da ordem do biológico acaba sendo vista como perigosa. Os professores ao sentirem-se despreparados para tratar deste assunto acabam tentando controlar estas manifestações sexuais como forma de diminuir o mal-estar e o perigo que a sexualidade, para eles, possa causar.
A partir disto, podemos ressaltar a importância, de existir um trabalho dirigido à preparação dos professores para atuarem dentro da área de orientação sexual. Porém, cabe salientar que um trabalho desta ordem, para possuir maior aprofundamento e aproveitamento, necessita ir além das informações sobre biologia e prevenção, e sim, deve propiciar um espaço que possam ser tratadas as questões de sexualidade baseadas sobre as próprias experiências de vida dos professores. Desta forma, esta temática, será discutida com uma maior aproximação do cotidiano de cada docente e como conseqüência facilitará a aquisição de respostas que dêem suporte as angústias e curiosidades inerentes à sexualidade.

REFERÊNCIAS
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Publicado em 27/10/2009


Franciele Roos da Silva Ilha e Hugo Norberto Krug - Franciele Roos da Silva Ilha: Licenciada em Educação Física (UFSM); Especialista em Educação Física Escolar (UFSM); Especialista em Gestão Educacional (UFSM); Mestranda em Educação (UFSM); Coordenadora da Linha de Estudos e Pesquisas Gestão Educacional e os Professores de Educação Física (GEPEF/UFSM) franciele.ilha@yahoo.com.br
Hugo Norberto Krug: Doutor em Educação (UNICAMP/UFSM); Doutor em Ciência do Movimento Humano (UFSM); Professor Adjunto do Departamento de Metodologia do Ensino (CE/UFSM); Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFSM); Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física (GEPEF/UFSM)

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