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METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS NA ESCOLA PÚBLICA: REVISÃO DE LITERATURA

Fernanda Nogueira de Sá Araújo

RESUMO
Apesar da evolução das metodologias de ensino de ciências que foi reforçada pelo avanço tecnológico com a utilização de vários recursos, como: computadores e microscópios entre outros, o ensino de ciências ainda continua precário. Muitas instituições mantêm o método de ensino tradicional como refúgio às mudanças educacionais. Aqui se insere a pretensão de discutir um pouco mais a respeito da educação brasileira, do ensino de ciências e dos métodos de ensino do mesmo, de como o professor dirige as situações estratégicas de ensino utilizadas na construção da aprendizagem, os recursos utilizados na busca de informações, assim como as relações de ensino-aprendizagem por ele estabelecido, fatores que influenciam o professor no desempenho da sua profissão e as dificuldades encontradas pelos alunos na comunicação e registro das informações.

Palavras-chave: metodologia de ensino de ciências; ensino de ciências; ciências na escola pública.

1. INTRODUÇÃO
“O ensino de ciências tem sido praticado de acordo com diferentes propostas educacionais, que se sucedem ao longo das décadas como elaborações teóricas e que, de diversas maneiras se expressam nas salas de aula. Muitas práticas , ainda hoje, são baseadas na mera transmissão de informações, tendo como recurso exclusivo o livro didático e sua transcrição na lousa; outras já incorporam avanços, produzidos nas últimas décadas, sobre o ensino de ciências em particular. Quando foi promulgada a Lei de Diretrizes e Bases da educação em 1961, o cenário escolar era dominado pelo ensino tradicional, ainda que esforços de renovação estivessem em processo. Aos professores cabia a transmissão de conhecimentos acumulados pela humanidade, por meio de aulas expositivas, e aos alunos a reprodução das informações. No ambiente escolar, o conhecimento, isento, e a verdade científica, tida como inquestionável. A qualidade do curso era definida pela quantidade de conteúdos trabalhados. O principal recurso de estudo e avaliação era o questionário; ao qual os estudantes deveriam responder detendo-se nas idéias apresentadas em aula ou no livro didático escolhido pelo professor”(PCN, p.19 e 20).

Visto este cenário a palavra inovação tornou-se mais que um mero objetivo, mas uma questão de urgente necessidade de mudanças na metodologia de ensino utilizada no decorrer de décadas. Ao falar-se em mudanças, é sabido que toda ela trás consigo inovações, muitas vezes são descartadas e justificadas pelo uso de técnicas antigas. No caso do ensino de ciências não é diferente, para os PCN, (p.20 e 21), “a preocupação de desenvolver atividades práticas começou a ter presença marcante nos projetos de ensino  e nos cursos de formação de professores. O método da redescoberta, com sua ênfase no método científico, acompanhou durante muito tempo os objetivos do ensino de ciências, levando alguns professores a, inadvertidamente, identificarem metodologia científica com metodologia do ensino de ciências, perdendo-se a oportunidade de trabalhar com os estudantes, com maior amplitude e variedade de investigação adequados às condições do aprendizado e abertos a questões de natureza distinta daquelas de interesse estritamente científico,” (...) “mostrar a ciência como elaboração humana para uma compreensão do mundo é uma tarefa para o ensino da área na escola. Seus conceitos e procedimentos contribuem para o questionamento do que se vê e se ouve, para interpretar os fenômenos da natureza, para compreender como a sociedade nela intervém utilizando seus recursos e criando um novo meio social e tecnológico. Propostas inovadoras têm trazido renovação de conteúdos e métodos, mas é preciso reconhecer que pouco alcançam a maior parte das salas de aula onde, na realidade, persistem velhas práticas. Mudar tal estado de coisas, não é algo que se possa fazer unicamente a partir de novas teorias, ainda que seja sim uma nova compreensão do sentido da educação, do processo no qual se aprende.”

Embora nem todos os que compõem o quadro de educadores no Brasil somassem esforços na revisão dos métodos de produzir o conhecimento, “são inúmeras as pesquisas, buscando contribuir para o ensino. Buscando superar a abordagem fragmentada das ciências naturais; diferentes propostas tem sugerido o trabalho com temas que dão contexto aos conteúdos e permitem uma abordagem das disciplinas científicas de modo inter-relacionado, buscando-se a interdisciplinaridade dentro da área.”( PCN, p.27).

As inovações, após a redescoberta da educação, parece ter impulsionado no corpo docente das instituições de ensino a uma nova face do conjunto de métodos utilizados para a transmissão do conhecimento, fazendo-lhes compreender de fato a sua importância no processo de ensino-aprendizagem, pois “nesse processo é sempre essencial a atuação do professor, informando, apontando relações, questionando a classe com perguntas e problemas desafiadores, trazendo exemplos, organizando trabalho com vários materiais: coisas da natureza, da tecnologia, textos variados, ilustrações etc... ” (PCN, p.28).

1.1 A QUALIDADE DA APRENDIZAGEM
Segundo os PCN, (p.28 e 59), “o interesse e a curiosidade dos estudantes pela natureza, pela ciência, pela tecnologia e pela realidade local e universal, contidos também pelos meios de comunicação, favorecem o envolvimento e o clima de interesse que precisa haver para o sucesso das atividades, pois neles encontram mais facilmente significado”, (...), tornando-se “fundamental ao professor ouvir seus alunos, quais significados pessoais que dão para o que se será estudado. ”

Outra preocupação, a memorização, velha conhecida das lacunas deixadas pelos métodos tradicionais é bastante discutida, “já são bem divulgadas as críticas ao ensino de ciências centrado na memorização dos conteúdos, ao ensino enciclopédico e fora de contexto social, cultural ou ambiental, que resulta em uma aprendizagem momentânea, ‘para a prova’, que não se sustenta a médio ou longos prazos. Por outro lado, é sabido que aulas interessantes de ciência envolvem coisas bem diferentes, como, por exemplo, ler texto científico, experimentar e observar, fazer resumo, esquematizar idéias, ler matéria jornalística, valorizar, (...), dessa forma o conhecimento científico, que também é construção  humana, pode auxiliar os alunos a compreenderem sua realidade global ou regional” (PCN, p.58). Reforçando a afirmação dos PCN, para VASCONCELOS, (1991, p.18), “o que altera ou não a qualidade da aprendizagem é o ensino.”
 
É fascinante adentrar o mundo do conhecimento, viu-se através dos PCN a significante contribuição trazida pelos novos métodos de ensino. Provou-se que não basta apenas ler ou transcrever os textos do livro, é necessário segundo HENNING, (1994, p.50), entender que “a compreensão da ciência envolve uma série de operações mentais para entender significado, organizar informação, diferenciar o aparente e o verdadeiro, resolver problemas, produzir novos conhecimentos”. Para tanto, construir o saber requer conhecimento teórico, habilidade e atitude. Para KNELLER, (1980, p.27), “a associação entre ciências e tecnologia se amplia, tornando-se mais presente no cotidiano e modificando, cada vez mais o mundo e o próprio ser humano”

Para que tudo o que é falado seja vivenciado em sala, é válido ressaltar que o professor , em conjunto com a escola, detém o interesse pelo despertar da curiosidade do aluno e só garantirá a aprendizagem quando seus métodos de ensino objetivem integrar aluno e o meio em que ele está inserido, conforme PAULINO, (2003, p.03), “a atitude do professores é sempre uma referencia para os alunos. Portanto, curiosidade, considerações, as múltiplas opiniões, persistência na busca de informações, valorização da vida e da diversidade que ela exibe, solidariedade, interesse pela preservação do ambiente, respeito a individualidade são, entre outras, atitudes que um educador deve sempre demonstrar, cabendo ao professor selecionar e organizar conteúdos para o adequado desenvolvimento intelectual do aluno. E como espaço privilegiado para a aprendizagem, a escola deve proporcionar uma soma de experiências, conhecimento e afeto que desenvolvam no aluno o exercício da solidariedade e da cooperação; o respeito às normas, Às diferenças culturais e à opinião dos colegas; a consciência plena de sua cidadania e de seus direitos e deveres. ”

DISCUSSÃO
O sistema de ensino brasileiro está condicionado aos métodos tradicionais de ensino. É uma questão delicada que adentra rotineiramente discussões nos cursos pedagógicos e licenciatura, e formação de professores. Trata-se de uma realidade infeliz para o quadro de educadores e afeta todo o sistema. Existem várias metodologias de ensino para abordagem dos conteúdos de ciência que devem ser compreendidas, estudadas e aplicadas de maneira coerente as condições do educando:

Para muitos alunos, aprender ciências é decorar um conjunto de nomes, fórmulas, descrições de instrumentos ou substâncias, enunciados de leis. Como resultado, o que poderia ser uma experiência intelectual estimulante passa a ser um processo doloroso que chega a causar aversão, (...), O que se ensina a grande parte dos alunos não têm sentido, por não ser compatível com o seu desenvolvimento intelectual e emocional (Myrian Krasilchik, 1987, p.52 e 53)

“O professor é o elemento do sistema que tem acesso direto e contato contínuo com os estudantes, (...), É ele também quem decide, em última instância sobre a utilização dos materiais didáticos” (Myrian Krasilchik, 1987, p.45). Em suma, a aprendizagem fica comprometida quando ocorre a má escolha na metodologia para o ensino de um determinado conteúdo, a falta de capacitação e monitoramento do planejamento e até mesmo a incapacidade de atuação do professor. A compreensão do conteúdo e, conseqüentemente o envolvimento do educando no ensino de ciências, depende fundamentalmente do conjunto de ações planejadas, tornando-se

sempre essencial atuação do professor, informando, apontando relações, questionando a classe com perguntas e problemas desafiadores, trazendo exemplos, organizando trabalho com vários materiais: coisas da natureza, da tecnologia, textos variados, ilustrações etc... (PCN, 1998, p.28).

É sabido tanto aos olhos da pedagogia quanto ao da psicologia, que o estudo não se negocia,

o interesse e a curiosidade dos estudantes pela natureza, pela ciência, pela tecnologia e pela realidade local e universal, contidos também pelos meios de comunicação, favorecem o envolvimento e o clima de interesse que precisa haver para o sucesso das atividades, pois neles encontram mais facilmente significado (PCN, 1998, p.59)

Segundo Myrian Krasilchik, este fator limitante do ensino de ciências não se refere aos problemas intrínsecos aos vários tipos de metodologias, mas ao mau uso delas (1987, p.53)       
Embora existam recursos didáticos que de certo “temperam” uma aula, como: vídeos, data-show, dinâmicas, etc, que auxiliam o professor na sala de aula a fazer a ligação do mundo exterior com o conteúdo trabalhado, quando disponíveis são mal utilizados. De forma a restringir o seu uso à transcrição fiel do livro didático. No caso do quadro negro o mal uso desse recurso simples se dá submetendo os educandos a escrever aulas inteiras.

 O cérebro memoriza informações que têm utilidade, forte carga emocional ou por repetições. Tirar nota alta numa escola que incentiva o ‘decoreba’ não tem muito significado para a vida futura, (...), Einstein gostava não do que ‘caía nas provas escolares’ e sim álgebra avançada, que foi aprender com seu tio Jakob. O que ele aprendeu e desenvolveu foi o que ‘caía nas provas da vida’. Portanto, mais que ter as informações dentro de si, o importante é saber onde encontra-las para usa-las (Içami Tiba, 2005, p. 202).

Ainda existem outros agravantes que contribuem para o fracasso da aprendizagem, dentre os fatores que influenciam negativamente o ensino de ciências estão: a preparação deficiente dos professores, a má qualidade de recursos didáticos, os obstáculos criados pela administração das escolas e a sobrecarga de trabalho dos professores. Mas, (MAGUS, revista. jun. 2002, p.65), faz uma séria indagação do Prof. Alan Almario, a respeito da desculpa de muitos educadores na intenção de resolver as lacunas no ensino de ciências “será que realmente o professor está sobrecarregado de serviços que os impede de exercer o papel de educador, ou será que se esconde atrás desta sobrecarga por ele escolhida?”. Outro ‘problema’ relatado pelo professor que contribui e influi para a má qualidade do ensino é a baixa remuneração.  São freqüentes os casos de reuniões para tratar de problemas técnicos em que as discussões ficam limitadas as condições de trabalho: a baixa remuneração dos professores como fator que influi negativamente no ensino de ciências(KRASILCHIK,1987).

MATERIAIS E MÉTODOS
Para a elaboração dessa pesquisa foram levados em conta dados resultantes da observação em sala de aula de professores de escolas públicas na cidade de Arcoverde-PE, através da disciplina Estágio Supervisionado I. II e III, da AESA/CESA (Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde – Centro de Ensino Superior de Arcoverde) entre 2007 e 2009. Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Ciências Naturais ofereceram embasamento teórico fundamental. Os demais artigos, foram selecionados na biblioteca da mesma onde apenas o conteúdo de interesse foi relevante.

CONCLUSÃO
Organizar o pensamento é uma tarefa no mínimo complicada. Para que a comunicação aconteça é necessário que todas as informações estejam bem organizadas, pois requer um planejamento prévio do que será dito. Assim é na educação. Não se pode entrar na sala de aula sem conhecer os métodos de ensino, seu planejamento, processos de coleta de material para aplicação atividades; conhecer o universo da educação é algo mágico e requer um esforço bem pequeno para ser compreendido, quando já se tem estabelecido uma metodologia de ensino previamente.

Mas como se dá a aprendizagem duma escola sem estrutura apropriada para o estudo? Qual a importância de possuir um espaço aconchegante e convidativo a ele? Ainda, como se trata de métodos e dinâmicas para o ensino de ciências, que consciência terá a comunidade escolar acerca das questões ambientais? Se o pensamento não foi construído satisfatoriamente ou se quer instigado?

O método tradicional de ensino abriu espaço para os novos conceitos educativos: novas metodologias, o surgimento da interdisciplinaridade, o interesse pelo universo do aluno, a viagem aos textos científicos. Mas, assegurar a aprendizagem e estimular o aluno ao entendimento da ciência ainda é um desafio a ser alcançado em longo prazo.

O percurso de objeções feitas por educadores quanto à qualidade de ensino, metodologia e desempenho dos alunos, transcende as fronteiras da mera informação de conteúdos programados; sugere o seguinte pensamento: o fingimento do papel do educando respinga na vida de alunos que pagam os salários daqueles que os tornaram em analfabetos funcionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMARIO, Alan. Retrato do professor. Magus. s.l: ano IV, n.65, jun. 2002.
KRASILCHIK, Myriam. O professor e o currículo das ciências. São Paulo: EPU: ed. P.28, Universidade de São Paulo, 1987.
TIBA, Içami. Adolescentes: quem ama educa. ed.36, São Paulo: editora Integrare, 2005.
PAULINO, Wilson Roberto. Biologia, 8ª ed., 2003.
PCN, Ciências Naturais, et al. Brasilia, 1998.
VASCONCELOS, Celso. Mundo Jovem, São Paulo, 18, julho,1991.

Publicado em 22/07/2009


Fernanda Nogueira de Sá Araújo - Aluna do VIII período de Biologia da AESA/CESA

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