O TRABALHO DOCENTE NA CONTEMPORANEIDADE: MUDANÇAS, REPERCUSSÕES NA SAÚDE E POSSÍVEIS INTERVENÇÕES
Renata Cristine Oliveira, José Geraldo Pedrosa1. INTRODUÇAO
Nas últimas décadas, o processo de gestão da educação transformou-se profundamente. Fatores como a perda do controle sobre o trabalho, sua intensificação e fragmentação contribuíram significativamente para a degradação das condições de trabalho docente (OLIVEIRA, 2003).
Considerando que a precarização do trabalho influencia na vida e, conseqüentemente, na saúde física e mental dos trabalhadores, é ressaltado por Kanaane (1999) que, de maneira geral, as condições atuais de traba-lho têm gerado, para muitos, estresses, somatizações e desajustes comportamentais. Esteve (1999) enfatiza que a profissão docente está sofrendo de um “mal-estar” que tem ocasionado faltas ao trabalho e, mais gravemente, o abandono da profissão.
2. OBJETIVOS
- Refletir sobre o trabalho docente na contemporaneidade;
- Identificar as mudanças ocorridas no trabalho docente e suas repercussões sobre a saúde/doença;
- Refletir sobre estratégias que promovam o bem-estar dos docentes.
3. METODOLOGIA
O presente estudo é de caráter teórico. Portanto, o material pesquisado é constituído por textos de auto-res contemporâneos vinculados à área de Educação. Entre eles, incluem-se autores de diferentes nacionalidades. Esses textos foram, inicialmente, submetidos a um processo de leitura exploratória. Depois de identificada a base conceitual, foram feitas leituras aprofundadas que forneceram referências para comparações entre as abordagens.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Constatou-se que, na história da educação e da profissão docente, a segunda metade do século XVIII representa um período-chave. Houve, nesse período, um movimento de secularização e estatização do ensino. O processo de estatização do ensino encontra-se estreitamente vinculado à extensão do capitalismo (NÓVOA, 1991) e consiste na troca de um corpo docente sob o controle da Igreja por um corpo docente sob o controle do Estado, sem que transformações significativas tenham ocorrido nas motivações, nas normas ou nos valores ori-ginais da profissão docente (JULIA, 1981).
A partir do século XVIII, não é permitido ensinar sem uma licença ou autorização do Estado. A licença ou autorização é vista como um suporte legal ao exercício da atividade docente na medida em que colabora para a delimitação do campo profissional de ensino e para a atribuição, ao professorado, do direito exclusivo de inter-venção nessa área (NÓVOA, 1991).
No século XIX, a expansão escolar é acentuada sob a pressão de uma grande busca social. Graças à conjugação de vários interesses advindos do Estado e dos docentes, são criadas várias instituições de formação. No princípio do século XX, “a época de glória do modelo escolar é também o período de ouro da profissão do-cente” (NÓVOA, 1991, p. 19). Entretanto, esta profissão não é feita somente de conquistas e progressos mas, também, de lutas e conflitos, aproximações e distanciamentos e muitas mudanças, principalmente no que diz respeito à organização do trabalho.
A burocratização existente no modo de organização do trabalho escolar condiciona as práticas dos do-centes no sentido de prestarem mais contas às exigências institucionais que a seus alunos. Essa postura contribui para inibir a autonomia e a criatividade profissional dos docentes (SACRISTÁN, 1991). O conteúdo técnico dos currículos e a sua elaboração prévia por especialistas, bem como uma maior regulamentação da atividade peda-gógica seriam, segundo Gonçalves (2003), fatores de desqualificação dos docentes.
Se, por um lado, há um movimento de profissionalização docente com o aumento das demandas e das competências exigidas, a proletarização é o seu contraponto. O trabalho docente está passando por um profundo processo de proletarização, entendido como a perda gradativa do controle do processo de trabalho e de autono-mia das ações, em função da centralização das decisões sobre os resultados do mesmo, além do aspecto relativo à venda da força de trabalho como mercadoria (ENGUITA, 1991).
No século XXI, os docentes vivenciam uma situação de alienação e expropriação do seu saber. O traba-lho docente já não é mais definido somente como atividade em sala de aula. Compreende, agora, a gestão da escola no que diz respeito à dedicação dos docentes às atividades de planejamento, elaboração de projetos, dis-cussão coletiva do currículo e da avaliação. Espera-se da escola e, principalmente, dos docentes, a formação de um profissional flexível, polivalente, de acordo com os novos padrões de qualificação.
Muitos docentes estão adoecendo em decorrência dessas exigências. Em estudos realizados por diversos autores, dentre eles Codo (1999), Esteve (1999) e Vasconcellos (1996), há um consenso quanto ao caráter alta-mente estressor da profissão docente. Os estudos apontam a importante contribuição dos aspectos relacionados ao ambiente escolar e à organização do processo de trabalho na produção de diferentes formas de adoecimento.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Posicionamentos teóricos como o de Gonçalves (2003) mostram que sensibilizar os alunos, os pais e a sociedade como um todo para os problemas relacionados à saúde dos docentes é uma ação que pode facilitar a concretização de estratégias de preservação dessa categoria profissional.
Destaca-se que o bem-estar dos docentes na contemporaneidade depende de múltiplos fatores externos mas, também, e muito, deles próprios, visto que os mesmos podem dar vários passos para melhorar a sua situa-ção e caminhar no sentido do seu bem-estar profissional.
Outra estratégia que traz benefícios significativos aos docentes é o fortalecimento (empowerment) pes-soal e coletivo, desenvolvendo capacidades de lidar com o estresse, valorização pessoal e grupal, controle das situações de conflito, modificando o contexto e canalizando as necessidades e aspirações (MONTERO, 2003).
A sensibilização dos gestores/administradores para a situação das escolas e da produção de saú-de/doença, através de reuniões com representantes das secretarias de educação e das secretarias de saúde dos municípios, a formação de um grupo de trabalho que vise a construir propostas para uma política de saúde dos docentes, bem como a criação de um fórum de debates sobre a instituição das comissões de saúde para os docen-tes, seja da rede municipal ou da rede estadual de ensino, também são estratégias que podem ser adotadas.
Por último, acredita-se que a transdisciplinaridade pode contribuir para que a relação saúde-trabalho dos docentes seja, em sua complexidade, entendida. A transdisciplinaridade pode facilitar o delineamento de novos serviços e a elaboração de ações eficazes em Saúde Coletiva direcionadas aos docentes.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CODO, Wanderley (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3ª ed. Petrópolis/RJ: Vozes/ Brasília: CNTE: UNB. Laboratório de Psicologia do trabalho, 1999.
ENGUITA, Mariano Fernández. A ambigüidade da docência: entre o profissionalismo e a proletarização. Revista Teoria & Educação. Porto Alegre, n. 4, p.41-61, 1991.
ESTEVE, José Manuel. O mal-estar docente: a sala-de-aula e a saúde dos professores. Trad. de Durley de Carva-lho Cavicchia. Bauru: EDUSC. 1999. Original Espanhol.
GONÇALVES, Gustavo Bruno Bicalho. Uso profissional da voz em sala de aula e organização do trabalho docen-te. 2003. 176 f. Dissertação (mestrado) - Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universida-de Federal de Minas Gerais, 2003.
JULIA, Dominique. Les trois couleurs du tableau noir - La Révolution. Paris: Éditions Belin, 1981.
KANAANE, Roberto. Comportamento Humano nas Organizações: o homem rumo ao século XXI. 2ª ed. São Pau-lo/SP: Atlas, 1999.
MONTERO, Maritza. Teoría y Práctica de la Psicología Comunitaria: La tensión entre la comunidad y sociedad. Buenos Aires: Piados, 2003.
NÓVOA, António. O passado e o presente dos professores. In: NÓVOA, António (Org.). Profissão Professor. Porto: Porto, 1991.
OLIVEIRA, Dalila Andrade. As reformas educacionais e suas repercussões sobre o trabalho docente. In: OLIVEI-RA, Dalila Andrade (Org.). Reformas Educacionais na América Latina e os Trabalhadores Docentes. Belo Hori-zonte: Autêntica, 2003.
SACRISTÁN, José Gimeno. Consciência e acção sobre a prática como libertação profissional dos professores. In: NÓVOA, António. (Org.). Profissão professor. Porto: Porto, 1991.
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Para onde vai o Professor? Resgate do Professor como sujeito de transfor-mação. SP: Libertad, 1996.
Publicado em 03/04/2008 16:00:00
Renata Cristine Oliveira, José Geraldo Pedrosa - Renata Cristine Oliveira: Psicóloga e Psicopedagoga; Especialista em Saúde Pública; Mestranda em Educação, Cultura e Organizações Sociais (Linha de Pesquisa em Saúde Coletiva) pela FUNEDI/UEMG. Recebe bolsa de auxílio para Mestrado por meio do Convênio FUNEDI-UEMG-ESTADO DE MINAS GERAIS.
renata.cristine@yahoo.com.br
José Geraldo Pedrosa: Doutor em Educação: História, Política, Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP. Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - CEFET MG e do Mestrado em Educação, Cultura e Organizações Sociais da FUNEDI/UEMG.
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