HISTÓRIA DA DANÇA


Do começo do Séc. XVI, quando o balé era ainda um folguedo, um divertimento de salão, a nobreza italiana (responsável pela criação da forma) declamava e dançava com acompanhamento musical, em cenários preparados e com luxuosos costumes, mas sem grande virtuosismo.

Os primeiros balés franceses, do tempo de Catarina de Médicis, como o Ballet Comique de la Reine, eram ainda uma dança cortesã. Bem antes disso, o espetáculo que Carlos V de França apresentou ao imperador alemão Carlos IV (1377) já denotava características das 'entradas de mouriscas', mais tarde transformadas em balé, com grupos de figurantes, cavalheiros mas também, às vezes, damas, personagens grotescos, com trajes bizarros, a executar danças muitas vezes licenciosas, que se sucediam a intervalos.
Cada grupo executava seu próprio bailado e, por fim, todos tomavam parte na dança geral, o grande balé. Tais 'entradas' incluíam recitativos, música vocal e instrumental. Aos poucos, a dança se estilizou, dominou os outros elementos, passou a exigir movimentos tão refinados e rapidez tão estonteante que o balé deixou de ser uma extravaganza de bom tom para transformar-se em teatro, coreografia montada e executada por profissionais, bailarinos, ginastas, atletas. Diversificou-se, depois, em duas modalidades principais: dança pura, acrobática, de alto requinte técnico, já sem características de bailado imitativo, enquadravel entre as danças abstratas; e dança dramática, mais próxima do balé original, de sociedade, como apresentação mímica de uma história ou tema.

Em 1581, o músico italiano Baltasarini, conhecido como Beaujoyeulx, compôs a primeira peça do novo gênero, destinada a fazer sucesso em toda a Europa: o ballet de circé, que reunia dança, música e poesia sobre um tema de tragédia clássica. Com muito fausto, carros alegóricos, fantasias, o balé italiano ganhou maior unidade dramática, e os enredos do romance medieval foram substituídos pelos da mitologia greco-romana. Mas tanto no balé abstrato como no balé dança dramática, a forma criou sua linguagem própria, hierática, estereotipada, montada sobre uma série de posições e movimentos convencionais, de ensino rígido e aprendizado obrigatório. Muitos desses movimentos, que são como que o alfabeto ideográfico do balé, são conhecidos no mundo inteiro pelos nomes franceses: pointe (dançar na ponta dos pés), par-de-deux (dança a dois), entrechat (salto em que os pés se cruzam no ar mais de uma vez, rapidamente).

Grande impulso tomou a dança sob Luís XIV. Soube atrair os melhores talentos do reino para seus espetáculos, inclusive Molière. Pécourt e Beauchamp encarregavam-se das danças, enquanto Lully, violinista e bailarino, compunha a maior parte das músicas. Luís XIV fundou em 1661 a Academia Real de Dança transformada na Academia Real de Música e Dança (1669). O balé passou, então, definitivamente da corte para o teatro. Consistia ainda numa série de danças executadas ao som de canto e música, com argumento mitológico. Os artistas eram agora sempre do sexo masculino, inclusive para os papéis femininos. Em geral, usavam máscaras e trajes que embaraçavam os movimentos e dificultavam a respiração.

Em 1681, Lully incluía, pela primeira vez, mulheres como bailarinas, em seu "O Triunfo do Amor". Os passos eram terre à terre, isto é, baixos e sem saltos. Foi o grande bailarino Ballon que incorporou os grandes saltos à técnica rudimentar.

Coube a Charles Louis Beauchamp elaborar as cinco posições dos pés, que até hoje continuam básicas, enquanto Raoul Feuillet realizou a primeira tentativa de notação de dança, com sua coreografia ou Arte de escrever a dança.


Com a morte de Luis XIV, o balé tornou-se profissional. A Ópera de Paris converteu-se no centro mundial da dança, durante todo o séc. XVIII. Bailarinas mulheres passaram a ocupar os primeiros lugares nos espetáculos e contribuíram para o aperfeiçoamento da arte: Marie Camargo criou o entrechat à quatre, o jeté e o pas-de-basque, encurtou os vestidos até acima dos tornozelos, escandalizando as platéias, e calçou sapatos sem saltos. Marie Sallé aboliu o penteado alto e adornado, o corpinho justo e a saia balão, soltou os cabelos e vestiu uma espécie de túnica de musselina branca.

A mais importante figura da dança no séc. XVIII foi, no entanto, Jean-Georges Noverre, reformador cuja obra principal, além de inúmeros bailados, foi Lettres sur la danse et sur les ballets, uma exposição de leis e teorias do balé, até hoje considerada a melhor do gênero.
Noverre foi o primeiro a argumentar que o balé não era um mére divertissement, mas uma arte nobre, destinada à expressão e ao desenvolvimento de um tema. Assim, foi ele o verdadeiro criador do ballet d'action, ou balé dramático, onde toda a história se conta por meio de gestos e não pelo canto ou pela declamação. Noverre reclamava maior expressão integrada na própria dança, maior simplicidade e comodidade nos trajes, mais vastos conhecimentos para os maîtres-de-ballet (especialmente de anatomia), a necessidade de um tema de fundo para cada balé e não meras danças esparsas e mecânicas. Há esse tempo, salientaram-se os grandes bailarinos Gaetano e Augusto Vestris, criadores de novos passos.

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